Crime em Nova Friburgo - A Literariedade em textos jornalísticos


O bicentenário de Nova Friburgo tem se mostrado bastante prolífico no tocante a iniciativas de resgate da memória da cidade. Um desses projetos é a página na rede social Facebook "Rumo aos 200 anos", coordenada pelos pesquisadores Pigeobau Pierre e Janaína Botelho. A maioria de suas postagens trata-se de recortes antigos de jornais, fruto de intensa pesquisa na Hemeroteca Biblioteca Nacional e um deles me chamou bastante atenção. Intitulado "Crime em Nova Friburgo" é uma notícia de um crime ocorrido no dia 24 de junho de 1829 na "nova vila" em que se destaca a "literariedade" da notícia, em uma época em que o jornalismo era totalmente diferente do que conhecemos em nossos dias - e no qual não pretendo me deter neste artigo. Outra característica que me chamou a atenção foi a grafia do Português utilizado na época - também muito distinto.


Trabalhos como este contribuem tanto pela informação de outros tempos, quanto pelas particularidades do texto e  do veículo, nos fazendo compreender melhor nossa história e o que somos. Sem mais delongas, segue abaixo o texto transcrito, tal qual foi divulgado na época.

Jornal do Commercio 3-7-1829 (Hemeroteca Biblioteca Nacional)

Morro Queimado ou Nova Friburgo

Acaba-se de commeter na nova Villa hum assassinio revestido de circunstâncias que augmentão o horror d’este crime. Allegro Pai de família residente no Rosário chegou a 24 de junho à nossa Villa, para n’ella fazer baptizar hum seu filho. O dia 24 era Santo: o tempo estava bello, e havia hum numeroso concurso dos habitantes das circunvisinhanças. Nada pressagiava que este dia consagrado a deveres religiosos e à recreação, se terminaria com uma scena de sangue.

O desgraçado Allegro depois de se haver retirado às 8 horas e meia da noite, tendo assistido a huma representação de Theatro que fizerão alguns moradores d’este sítio passeava tranquilamente na frente de sua habitação, fazendo horas para se deitar; sendo observado, e chegando a hum dos extremos, achou-se de repente surprehendido, e assaltado por hum numero de assassinos. Estendido sobre o chão, a notícia s’espalhou logo que hum homem havia sido espancado à mortem e que seus assassinos foram vistos a fugir a toda a pressa, o alarme faz-se geral, e sabe-se que Allegro he a victima.

Não obstante os cuidados que lhe foram prodigalisados, os talentos do Doutor Baziel n’applicação dos remédios só sobreviveo 3 dias no seu cruel estado.

Huma das occorrencias mais atrozes d’este assassinio, e que distingue o caracter dos assassinos, he que depois de haverem saciado a sua ferocidade, havendo-lhe aberto o cranco a pancadas de páo, quebrado todos os dentes, e atravessado huma faca pelo pescoço, temendo-se talvez que a morte revellasse os criminosos, cortarão-lhe a língua.

Parece que a penna recusa-se a traçar estes detalhes. As mais fortes suspeitas recahirão logo sobre alguns indivíduos bem conhecidos, e que todos cuidão em evitar, os quaes graças à impunidade, ou à nullidadede meios repressivos tem-se accumulado crimes sobre crimes.

O mesmo desgraçado Allegro antes de morrer, por movimentos affirmativos com a cabeça, às perguntas que se lhe fazião, parece tê-los designado à Justiça. Existem outras provas mais evidentes ainda.

Os mesmos páos que foram achados no lugar do assassinio tintos de sangue, foram vistos nas mãos d’esses indivíduos de dia; ha testemhunhas que os virão incurta-los, e que os pedaços que foram separados coincidião com os mesmos páos, se estas circunstâncias todas forem combinadas, ver-se-há que não pode haver contra elles accusação mais grave.

Ouvimos dizer que o Governo ordenou logo que se abrisse huma devassa; Esta forma de proceder, segundo nos parece, para que tivesse bom resultado, devia de ser precedida da remessa de 5 ou 20 Soldados a fim de proteger efficazmente tanto a segurança como o castigo dos criminosos: de outra forma quem se animara a revellar o que vio, e o que ouvio sabendo que os assassinos estão em plena liberdade, que podem rondar a sua casa, e ser victima da sua deposição. O mesmo substituo Juiz de Paz Mr. Quevremont, não está seguro.

Estas considerações são tanto mais verdadeiras  que a Camara do Morro Queimado pedio ao Governo huma força armada, visto que a que existe he nulla tanto pelo seu numero como pela sua qualidade.

Estamos aqui todos na maior auxiedade, que será das vantagens da feliz temperatura d’este clima, que no verão nos motiva a vinda de muitos estrangeiros, se estes tem a temer pela sua vida, se souberem que aqui pode-se ser criminoso impunemente.

Tal he Sr. Redactor, a narração succinta de huma Scena dolorosa, e horrivel nos seus detalhes, e que he impossivel que o Governo não tome na mais séria consideração.


George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Para os dias que virão


Para os dias que virão desejo fé, entusiasmo e força. Quando eu era garoto, o presidente era o Sarney, que assumiu após a morte do Tancredo. Eu não lembro quase nada dessa época, até porque eu era muito jovem, mas o pouco que sei é que as coisas eram bem difíceis. Desde esse tempo para cá, foram (adivinhem?) sete presidentes: três se reelegeram; um(a) não cumpriu o segundo mandato inteiro; e tivemos dois impeachments. Nesse intervalo tivemos várias políticas econômicas e públicas (à moda da casa), a fim de equilibrar e organizar a sociedade e colocar o Brasil em lugar de destaque, um país em “desenvolvimento”. Foram implementadas várias moedas até chegarmos ao nosso Real; a Educação, a Saúde, a Segurança Pública, e muitas outras áreas, tiveram abordagens e importâncias diferentes em cada governo e sofremos os efeitos da solução de continuidade até hoje.

Nunca foi fácil, caro leitor, nunca. Hoje em dia, temos as redes sociais e uma mídia poderosíssima, através das quais as notícias de falcatruas (a ponta do iceberg) nos chegam rapidamente. Contudo, alguém duvida que desde os tempos coloniais passamos pelos mesmos problemas? Corrupção, intrigas, favorecimentos, populismo, privatizações, descaso com os serviços públicos… Sempre foi assim e sempre será. Entretanto, não desesperemos. A mudança parte de nós e nisso, também somos exemplos de perseverança. Vários movimentos, inclusive, surgiram na história brasileira em busca de melhores condições de vida: Inconfidência, Canudos, Diretas Já, Caras Pintadas e tantos outros, se revoltaram e lutaram contra um sistema, cuja essência, infelizmente, perdura até hoje.

Nunca foi diferente.

Recentemente, foi assinado um “regime de recuperação fiscal”, e os Estados que estouraram seus limites de endividamento poderão contratar empréstimos com respaldo do Governo Federal. Esse é o caso do Rio de Janeiro, que amarga uma crise desde 2015 e vê no acordo uma chance de recuperação. Contudo, medidas de austeridade serão tomadas para aderir ao plano, e o parecer do Ministério da Fazenda sugere, entre outras ações (pasmem), até o fechamento das universidades estaduais.

Há um ditado que diz “O pessimista reclama do vento, o otimista espera que ele mude, o realista ajusta as velas”. Talvez eu seja um pouco de tudo: reclamo, tenho fé que um dia as coisas mudem, mas não deixo de me ajustar à situação. Vi certa vez em um filme de piratas, na iminência de uma terrível tempestade, os bucaneiros se amarrando nos mastros para atravessá-la em segurança. O mar estava grosso, os ventos impiedosos. Não, não havia como fugir. Não há como fugir da tempestade. Nossa viagem tupiniquim passa por um momento parecido: o céu está enegrecido de nuvens carregadas, gotas grossas castigam a pele; a embarcação está a balouçar, quase virando, quase emborcando de vez. Muitos caem pela borda, mas precisamos ter fé, entusiasmo e força. É hora, caro leitor, de nos amarrarmos bem firmes aos mastros porque, para os dias que virão, a previsão é de mau tempo e ainda que estejamos longe do olho do furacão, como diz outro ditado, “depois da tempestade, vem a bonança”.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com

*Publicado no portal de notícias Nova Friburgo em Foco em 10/09/2017.
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Promoção da Independência no Clube de Autores!


O Clube de Autores iniciou o mês da independência com aquela promoção perfeita para aquecer as letras e dinamizar suas histórias: até o próxima domingo, 17 de setembro, todos os impressos do Clube estarão com até 25% de desconto!

Vamos às regras:

1) Todas as obras impressas publicadas no Clube já estão incluídas na promoção;

2) Os descontos variam de acordo com a quantidade de páginas de cada obra e com o valor dos direitos autorais de cada título: Quanto maior o valor dos direitos autorais, menor o valor do desconto (sendo, portanto, diferente para cada livro);

3) Os descontos não abrangem os direitos autorais. Ou seja: independentemente do montante cortado no preço, os direitos autorais permanecem rigorosamente os mesmos e os autores não serão prejudicados em nenhum aspecto. Caso queira ampliar o desconto do preço no período alterando o valor dos direitos autorais, os próprios autores deverão fazê-lo indo a Sua Conta > Livros Publicados, clicando em “ações” e em “editar direito autoral”.

4) A promoção já está no ar, vai até o final da quarta, 17/09, e pode ser conferido aqui - www.clubedeautores.com.br. Aproveite!
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Não está fácil para ninguém


Em um reino fictício, a rainha foi deposta, investigada por irregularidades fiscais. Seu Conselheiro, ao assumir o trono, também se torna investigado por corrupção, enquanto busca aprovar medidas a fim de restaurar a economia, as relações trabalhistas, e afastar de vez a crise que vem assolando o país. Estados em falência, poder de compra diminuído e população desconsolada. Recebem a notícia de que aquele tal rei que veio do povo, também investigado, foi condenado pela Corte. Ao longo de todo esse processo, manifestações pró e contra a Coroa pipocam em todo reino, um brado retumbante de um povo heróico ouviram do Ipiranga.

Está difícil para você? Há gente fazendo fila para receber cesta básica! Há gente morrendo nos corredores de hospitais. Há balas perdidas que encontram alvo em corpos de crianças. 

Não está fácil para ninguém.

Nesse reino fictício, não está fácil nem para os políticos que tentam manter a cabeça acima do pescoço, tampouco para o povo que busca tomar a Bastilha.
E assim vivemos na corda bamba, em cima do muro, observando os dois lados, fingindo que é tudo mentira e que não está tão ruim assim; afinal, só dói quando é na própria pele. Fingimos. Fingimos, inclusive que não temos nada a ver com isso.

Há, convenhamos caro leitor, muito mais coisas acontecendo entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia, muito mais do que interesse que sejam publicadas em jornais. A verdade está pichada nos muros. Uma crise política, econômica, de segurança, de saúde, de educação e, sobretudo, de valores – e não surgirá nenhum herói para salvar-nos e casar com a mocinha no final. Os heróis e vilões somos todos nós.

Não é ficção, não é novela. O nome desse reino é Brasil e você é meu vizinho. Eu sei que está difícil ver uma luz no fim do túnel que não seja um trem, mas é preciso continuar a caminhada e acreditar uma vez mais – e outra vez. Pelo menos pra ver no final de tudo, o próprio nome aparecer nos créditos e bater no peito orgulhoso de que fez parte disso. Quaisquer que sejam os resultados.

George dos Santos Pacheco
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Ensaio sobre o tempo


A vida é breve. A vida é uma prece murmurada, na calada da noite, interrompida subitamente pelo sono, à nossa revelia; é um dia de sol, de céu azul e límpido, de brisa fresca, de pássaros gorjeando em rasantes. Sem que percebamos, vem logo a noite e o frio, a escuridão. Talvez a vida seja um soneto: belo, curto, emocionante. E não há nada que possamos fazer a fim de deter o sono, a noite… o fim do poema. Só nos resta orar, recitar, viver. A vida é breve, é o que sei. É apenas o que sei, é tudo o que eu sei.

E o que é o tempo?

Na mitologia grega, Cronos é o mais jovem dos titãs, filho de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a terra. Rei dos titãs, e grande deus do tempo, é o regente dos destinos e que a tudo devora.

Diz-se que o tempo é invenção do homem – e vá lá, talvez o seja – mas sendo invenção do homem, não deveríamos ter o poder de controlá-lo? Pois os gregos já alertavam sobre Cronos, o inexpugnável e cruel. O tempo é cruel, mas somente em determinado período da vida é que vamos perceber isso. Quando garotos, temos todo o tempo mundo, mas à medida que a maturidade vem, os compromissos, o trabalho, as responsabilidades, tudo isso faz parecer o tempo cada vez mais escasso, ele escorre pelas mãos (mesmo sem se sentir).

Lembro-me de quando criança caminhar com meu pai nos fins de semana pelo bairro. E a gente seguia cumprimentando seus amigos e eu olhava para ele, e ele me parecia tão grande, tão firme, tão cheio de vigor, que eu me sentia seguro. Eu não precisava temer nada! E antes de sair, despedia-me de minha mãe, tão ativa, que me preparava e me dava uma série de recomendações e ela sempre me pareceu tão convicta que eu não precisava me preocupar, tudo daria certo. Eu ainda recebo recomendações de minha mãe e meu pai ainda me conduz – e será sempre assim – entretanto, já observo os cabelos em tons de prata, a pele perdendo o viço, os olhos... e a fragilidade. O tempo passa (e passa muito rápido).

A sensação de impotência diante das coisas e do tempo nos proporciona certa angústia, embora não tenha sido sempre assim. Eu nunca me importei com a fragilidade e brevidade da vida (talvez não dessa forma), contudo, hoje me reconheço em meus pais na relação com meus filhos. Somos o referencial deles: grandes, firmes, cheios de vigor, convictos... Mas um dia eles também observarão nossos cabelos brancos – e eu torço para que seja realmente assim – e talvez eles sintam no peito uma pontinha de medo de nos perder, assim como eu, minha esposa, e você, caro leitor.

Como não há o que fazer, o que nos cabe é valorizar cada momento, cada minuto de nossas horas e as pessoas que fazem parte delas. Eu lhes asseguro que cada momento é único, sem reprise ou replay, e eu poderia muito bem colocá-los enfileirados numa estante com uma plaquinha dourada em baixo para, orgulhoso, mostrar a uma visita. Todos eles, bons ou ruins. A vida é breve e não tem reprise ou replay; o tempo passa (e passa cada vez rápido) e seria muito menos doloroso se vivêssemos conscientes disso.

Os homens escrevem livros, constroem grandes muros, erigem obeliscos e colossos para, numa tentativa desesperada, registrar sua passagem pelo mundo, pela vida e pelo tempo. Mas quando tudo acabar, quando todos se forem, restará apenas o tempo, este sim, eterno. Inexpugnável e cruel, solitário, gordo e tirano, o único sobrevivente de um universo inteiro.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Isso é pra você aprender!


Confesso que não sou autor dos episódios a seguir. A verdade, contudo, é que acredito que muitas histórias que circulam oralmente na cultura popular precisam – e merecem – ser registradas para que não se percam e que nos sirvam de lição. Afinal, alguém discorda de que toda história tem algo para contar e nós, muito que aprender?

Diz que dois garotos estavam negociando um burro com o dono de um sítio, com a intenção de rifá-lo; cerca de duzentos bilhetes já estavam todos vendidos (a dois reais cada) e o sorteio seria no dia seguinte. Dava para pagar o produto e ainda sobrava uma graninha boa. O animal estava muito bem cuidado: os pelos acinzentados, brilhantes, eram escovados todos os dias e o couro não tinha um machucado. Os dentes de Rambo – nome pelo qual o bicho atendia – também eram impecáveis e, assim, ninguém poderia por defeito nele.

Acontece que, apesar de todo o cuidado que Seu Zé Maria tinha, infelizmente, o bicho amanheceu morto. Cabisbaixo e tristonho, o dono teve que explicar aos garotos que não poderia vendê-lo.

 – Meninos, infelizmente, não posso vender mais o burro para vocês. O Rambo morreu essa manhã.

– Como assim morreu, Seu Zé? – perguntaram quase em uníssono.

– Não sei dizer, crianças. Apenas amanheceu morto. – respondeu, ao que os meninos pediram licença e se afastaram um pouco. Trocaram meia dúzia de palavras e retornaram.

– Então, a gente vai querer ele assim mesmo.

– Como assim mesmo? Não ouviram? O Rambo morreu!

– A gente o compra assim mesmo! – insistiram. Seu Zé não entendeu nada, mas decidiu entregar o bicho.

– Meninos, eu não estou entendendo nada, mas vocês podem ficar com ele. Na verdade, vocês vão me fazer um favor levando ele embora. E é claro, não vou cobra-lhes nada.

Os garotos agradeceram e foram embora. Dias depois, o velho encontrou-os no centro da vila, felizes e sorridentes e a curiosidade apertou. Aproximou-se e sem rodeios, perguntou pelo finado bicho de estimação.

– Ora, a gente o rifou. – responderam sorrindo.

– Como o rifaram, meus filhos? O bicho não estava morto? Ninguém reclamou? – perguntou estupefato.

– Apenas o ganhador!

– E o que vocês fizeram?

– Devolvemos o dinheiro para ele!

A outra história conta que um taxista, já no final do expediente, passou em frente a uma famosa clínica psiquiátrica da cidade. No ponto de ônibus, três maluquinhos estavam esperando a condução, e o motorista viu ali uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Parou o carro e esticando o corpo pelo banco do carona, chamou os rapazes.

– Ei, amigos! Vocês estão indo para onde?

– Eu estou indo para a Ponte da Saudade! – disse um.

– Eu vou para o Centro! – disse o outro.

– Eu vou para Olaria! – disse o último.

– Entrem aí, faço um preço bem camarada. – afirmou sorridente e os maluquinhos embarcaram.

Depois de todos acomodados, o taxista não engatou a marcha e acelerou fortemente o carro, no mesmo lugar, por um breve período e gritou “Ponte de Saudade”! O maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Em seguida, acelerou o carro com vigor, virou o volante para cá e para lá e gritou “Centro”! O outro maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Por último, acelerou novamente o veículo, desta vez com mais empenho ainda, e anunciou que haviam chegado ao último bairro. O rapaz pagou e desceu do carro sem dizer nada, fez a volta e parou bem ao lado do motorista, que tinha a janela aberta e deu um tremendo tapa em seu rosto. O taxista fechou os olhos cheios de lágrimas e pensou: “Caramba, fui descoberto...”. E pra não deixar barato, o último maluquinho deu-lhe um pito:

– Isso é pra você aprender a não andar correndo tanto assim!

***

Moral das histórias: Há sempre alguém querendo se dar bem prejudicando os outros; em nossa sociedade, só é respondido quem reclama (então reclamemos!); e por último e não menos importante, quem é esperto demais e vive enganando os outros, quando menos esperar vai ser punido. E pode ser que nem assim aprenda!

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Como assistir a um filme na TV


Parece tarefa fácil, mas não é não. Quando eu era garoto, era mais difícil ainda, é bem verdade. Tínhamos um único aparelho, um caixote pesadíssimo, com partes de madeira, em preto e branco (em que se colocavam telas coloridas por cima), que sintonizavam – quando sintonizavam – apenas quatro canais. De vez em quando o pai subia na laje e virava a antena “espinha de peixe” para melhorar a imagem: “Tá bom agora?”, gritava lá de cima; “Tá bom!” / “Tá ruim de novo!”, a gente respondia.

Voltemos ao futuro. Hoje, a minha TV tem uma série de canais, mas é praticamente monopolizada por programas infantis. Mal consigo assistir a um jornal em minhas horas de folga. Alguns desenhos animados chegam a ter uma temática adulta, para envolver a família toda, inclusive. Então, se eu quiser assistir a um filme com a esposa na televisão, a melhor forma é depois de as crianças dormirem (assistir a um filme no cinema pode custar até umas 80 pratas, sabia?).

Primeiro passo: colocar os filhos pra dormir. 

Lanchinho, dentes escovados, oração, e uma historinha lida em grupo. Deus abençoe, durmam com Deus. Com as crianças deitadas, se você não fez isso antes, procure um filme bacana na grade de programação dos canais disponíveis.

Segundo passo: procurar um filme bacana. 

Filme escolhido, começa em cerca de meia hora. Agora o terceiro passo: preparar um lanchinho.

Com as crianças deitadas, filme escolhido e lanche preparado, sente-se com sua mulher no sofá e converse um pouco sobre as coisas do dia a dia: o trânsito ruim, o pito que ela precisou dar no mais velho, o gás que acabou no meio da preparação do almoço… Opa, isso é coisa rápida, as logos da produtora e associados já estão aparecendo na tela. E você precisa conseguir um outro momento para conversar com sua esposa sobre o dia a dia, com mais calma, não é? Isso é coisa séria.

O filme contava a história de um grupo de adultos de meia idade que voltam à cidade natal para um encontro da escola do Ensino Médio, ou High School, na película americana. O personagem principal era um dos únicos casados e vivia uma crise com a mulher, e a presença de ex-colegas de escola o deixava em situações embaraçosas. Uma comédia bacana. Esperem aí, o Jim vai falar alguma coisa: acabou de encontrar com uma moça de camiseta transparente e short curto, o cabelo amarrado em um pesado rabo de cavalo.

– Amor, baixe o volume, vamos acordar as crianças… – disse minha esposa. Não ouvi o que Jim falou.

Não reclamei e baixei logo o som da TV. As crianças, a essa altura já deviam dormir pesadíssimo. Não, espere aí: o mais velho está acordado, está se remexendo na cama.

Jim e os amigos combinaram uma festa, como nos tempos de escola. A tal moça, da qual ele foi babá quando jovem, é vizinha de seu pai e está dando o maior mole para ele e…

– Mãe…

– Você ouviu?

– Ouvi o quê?

– Estão chamando…

– Não tem ninguém chamando.

– Tem sim.

– Mãe…

– O que foi meu filho?

– …

– Posso ligar o ventilador?

– Pode, meu filho, pode sim. – me adiantei para concluir a conversa mais rapidamente. Aproveitei a desculpa do barulho do ventilador para aumentar um pouco mais o volume. Minha mulher acatou, sem se incomodar.

Caramba! Típica comédia adolescente americana: a coleguinha do Jim ficou peladinha. Bêbada, está atacando ele dentro do carro; Jim tenta se esquivar, sem sucesso, mas ela desmaia embriagada. Jim precisa de sua mãe… Espere aí, mãe?

– Mãe…

– Estão chamando de novo?

– Estão.

– Mãe?

– O que foi, meu filho?

– Me dá um copo de água?

– Sim, filho. Um copo de água e ele dorme. Com certeza. O copo de água não falha nunca. O Jim… porra, cadê o Jim? Já está falando com a esposa em casa. Não entendi o que ele disse, o assunto não tem pé nem cabeça. Vai ver fazia sentido com a cena anterior.

– Boa noite, filho!

– Boa noite!

– Boa noite, filho!

– Boa noite, pai!

Agora sim. O garoto dorme e a gente consegue ver, finalmente, o filme. Minha esposa acabou de comentar alguma coisa que aconteceu hoje; eu ouvi, mas não escutei. Na verdade, não faço a mínima ideia do que ela disse – e se eu perguntar, vou tomar um esbregue. Pergunto ou não pergunto? Não pergunto. Vamos ver o filme.

Jim, com problemas no casamento e tentado pela vizinha gostosa, pede conselhos ao pai. “Sai da minha casa!”. Ahn? Como assim “sai da minha casa”? Jim e o pai sempre se deram tão bem…

Sai da minha casa!

Você é um vagabundo!

Para com isso, olha o que você está fazendo!

Eu não estou nem aí…

A mulher berrava totalmente descontrolada com o ex-namorado, com o qual tinha um filho. Levantei-me do sofá e me aproximei da janela, afastando a cortina com a ponta dos dedos. Sim, era isso. Quando estavam juntos, se desentendiam com frequência, mas agora, após ele ter arrumado uma nova namorada, a mulher passou a ter crises de ciúme em público.

Some daqui!

Você está ferrada, sua vagabunda! Nem pensão ele dá para o filho!

Sentei-me novamente e aumentei o volume da TV. O pai de Jim o aconselhava, ele precisava se entender com a esposa, afinal de contas. Usou como exemplo a vida dele com a mãe de Jim, antes de seu nascimento. Viviam como jovens namorados, mas com a chegada do filho, tudo mudou. As prioridades são outras, inclusive o marido passa a ser uma segunda prioridade para a mulher e Jim precisava ser paciente e maduro para compreender a situação. “Vai embora!”

Não faz isso!

Veja os meus braços… você me agrediu! Vou te denunciar! Você está preso!

– Não é possível! – murmurei incomodado. – O síndico não vai fazer nada?

– Mãe…

– Você sabe… em briga de marido e mulher…

– Ninguém mete a colher? Mas isso aqui é um condomínio!

– Mãe?

– O que foi, meu filho? Vai dormir! – determinei gesticulando o controle da TV na direção do garoto.

– O que está acontecendo?

– Jim, você me agrediu!

– Não está acontecendo nada! Vai dormir!

– Nossa, como você é grosso!

– Eu não fiz nada. Você invadiu minha casa, está me fazendo passar vergonha diante de meus vizinhos e ainda arranhou os braços para me acusar.

– Pai, eu já não sei o que fazer!

– É só um casal brigando, vai dormir!

– Sabia que já passa das dez?

– Eu quero que se fooooooooooda, queridinho! Você, essa vagabunda e todos os seus vizinhos.

– Jim, estou apaixonada por você, vamos relembrar os tempos em que você cuidava de mim?

– Não aumente mais o volume.

– Vai adiantar o quê? O garoto já está acordado!

– Mande ela sair daí! Ela está com medo? Mande ela vir aqui fora!

– Vai embora!

– Eu só vou embora depois que ela sair daí e vier falar comigo. Aliás, vou começar a quebrar tudo aqui, até ela aparecer. E vou começar por esse carro preto…

Poxa vida, isso não tem hora para acabar não? Organizei-me para ver esse filme e a ex-mulher do cara ainda resolveu quebrar tudo. O síndico, a essa hora, está dormindo pesadíssimo e ninguém vai meter a colher nessa briga… opa… espere aí! Ela disse “carro preto”?

– Ela disse “carro preto”?

– Disse sim… – respondeu minha esposa com os olhos vidrados na TV.

– Mas o carro preto é nosso! – esbravejei, levantando de um salto.

– Mas… e o filme?

– Que filme?

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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