Não está fácil para ninguém


Em um reino fictício, a rainha foi deposta, investigada por irregularidades fiscais. Seu Conselheiro, ao assumir o trono, também se torna investigado por corrupção, enquanto busca aprovar medidas a fim de restaurar a economia, as relações trabalhistas, e afastar de vez a crise que vem assolando o país. Estados em falência, poder de compra diminuído e população desconsolada. Recebem a notícia de que aquele tal rei que veio do povo, também investigado, foi condenado pela Corte. Ao longo de todo esse processo, manifestações pró e contra a Coroa pipocam em todo reino, um brado retumbante de um povo heróico ouviram do Ipiranga.

Está difícil para você? Há gente fazendo fila para receber cesta básica! Há gente morrendo nos corredores de hospitais. Há balas perdidas que encontram alvo em corpos de crianças. 

Não está fácil para ninguém.

Nesse reino fictício, não está fácil nem para os políticos que tentam manter a cabeça acima do pescoço, tampouco para o povo que busca tomar a Bastilha.
E assim vivemos na corda bamba, em cima do muro, observando os dois lados, fingindo que é tudo mentira e que não está tão ruim assim; afinal, só dói quando é na própria pele. Fingimos. Fingimos, inclusive que não temos nada a ver com isso.

Há, convenhamos caro leitor, muito mais coisas acontecendo entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia, muito mais do que interesse que sejam publicadas em jornais. A verdade está pichada nos muros. Uma crise política, econômica, de segurança, de saúde, de educação e, sobretudo, de valores – e não surgirá nenhum herói para salvar-nos e casar com a mocinha no final. Os heróis e vilões somos todos nós.

Não é ficção, não é novela. O nome desse reino é Brasil e você é meu vizinho. Eu sei que está difícil ver uma luz no fim do túnel que não seja um trem, mas é preciso continuar a caminhada e acreditar uma vez mais – e outra vez. Pelo menos pra ver no final de tudo, o próprio nome aparecer nos créditos e bater no peito orgulhoso de que fez parte disso. Quaisquer que sejam os resultados.

George dos Santos Pacheco
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Ensaio sobre o tempo


A vida é breve. A vida é uma prece murmurada, na calada da noite, interrompida subitamente pelo sono, à nossa revelia; é um dia de sol, de céu azul e límpido, de brisa fresca, de pássaros gorjeando em rasantes. Sem que percebamos, vem logo a noite e o frio, a escuridão. Talvez a vida seja um soneto: belo, curto, emocionante. E não há nada que possamos fazer a fim de deter o sono, a noite… o fim do poema. Só nos resta orar, recitar, viver. A vida é breve, é o que sei. É apenas o que sei, é tudo o que eu sei.

E o que é o tempo?

Na mitologia grega, Cronos é o mais jovem dos titãs, filho de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a terra. Rei dos titãs, e grande deus do tempo, é o regente dos destinos e que a tudo devora.

Diz-se que o tempo é invenção do homem – e vá lá, talvez o seja – mas sendo invenção do homem, não deveríamos ter o poder de controlá-lo? Pois os gregos já alertavam sobre Cronos, o inexpugnável e cruel. O tempo é cruel, mas somente em determinado período da vida é que vamos perceber isso. Quando garotos, temos todo o tempo mundo, mas à medida que a maturidade vem, os compromissos, o trabalho, as responsabilidades, tudo isso faz parecer o tempo cada vez mais escasso, ele escorre pelas mãos (mesmo sem se sentir).

Lembro-me de quando criança caminhar com meu pai nos fins de semana pelo bairro. E a gente seguia cumprimentando seus amigos e eu olhava para ele, e ele me parecia tão grande, tão firme, tão cheio de vigor, que eu me sentia seguro. Eu não precisava temer nada! E antes de sair, despedia-me de minha mãe, tão ativa, que me preparava e me dava uma série de recomendações e ela sempre me pareceu tão convicta que eu não precisava me preocupar, tudo daria certo. Eu ainda recebo recomendações de minha mãe e meu pai ainda me conduz – e será sempre assim – entretanto, já observo os cabelos em tons de prata, a pele perdendo o viço, os olhos... e a fragilidade. O tempo passa (e passa muito rápido).

A sensação de impotência diante das coisas e do tempo nos proporciona certa angústia, embora não tenha sido sempre assim. Eu nunca me importei com a fragilidade e brevidade da vida (talvez não dessa forma), contudo, hoje me reconheço em meus pais na relação com meus filhos. Somos o referencial deles: grandes, firmes, cheios de vigor, convictos... Mas um dia eles também observarão nossos cabelos brancos – e eu torço para que seja realmente assim – e talvez eles sintam no peito uma pontinha de medo de nos perder, assim como eu, minha esposa, e você, caro leitor.

Como não há o que fazer, o que nos cabe é valorizar cada momento, cada minuto de nossas horas e as pessoas que fazem parte delas. Eu lhes asseguro que cada momento é único, sem reprise ou replay, e eu poderia muito bem colocá-los enfileirados numa estante com uma plaquinha dourada em baixo para, orgulhoso, mostrar a uma visita. Todos eles, bons ou ruins. A vida é breve e não tem reprise ou replay; o tempo passa (e passa cada vez rápido) e seria muito menos doloroso se vivêssemos conscientes disso.

Os homens escrevem livros, constroem grandes muros, erigem obeliscos e colossos para, numa tentativa desesperada, registrar sua passagem pelo mundo, pela vida e pelo tempo. Mas quando tudo acabar, quando todos se forem, restará apenas o tempo, este sim, eterno. Inexpugnável e cruel, solitário, gordo e tirano, o único sobrevivente de um universo inteiro.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Isso é pra você aprender!


Confesso que não sou autor dos episódios a seguir. A verdade, contudo, é que acredito que muitas histórias que circulam oralmente na cultura popular precisam – e merecem – ser registradas para que não se percam e que nos sirvam de lição. Afinal, alguém discorda de que toda história tem algo para contar e nós, muito que aprender?

Diz que dois garotos estavam negociando um burro com o dono de um sítio, com a intenção de rifá-lo; cerca de duzentos bilhetes já estavam todos vendidos (a dois reais cada) e o sorteio seria no dia seguinte. Dava para pagar o produto e ainda sobrava uma graninha boa. O animal estava muito bem cuidado: os pelos acinzentados, brilhantes, eram escovados todos os dias e o couro não tinha um machucado. Os dentes de Rambo – nome pelo qual o bicho atendia – também eram impecáveis e, assim, ninguém poderia por defeito nele.

Acontece que, apesar de todo o cuidado que Seu Zé Maria tinha, infelizmente, o bicho amanheceu morto. Cabisbaixo e tristonho, o dono teve que explicar aos garotos que não poderia vendê-lo.

 – Meninos, infelizmente, não posso vender mais o burro para vocês. O Rambo morreu essa manhã.

– Como assim morreu, Seu Zé? – perguntaram quase em uníssono.

– Não sei dizer, crianças. Apenas amanheceu morto. – respondeu, ao que os meninos pediram licença e se afastaram um pouco. Trocaram meia dúzia de palavras e retornaram.

– Então, a gente vai querer ele assim mesmo.

– Como assim mesmo? Não ouviram? O Rambo morreu!

– A gente o compra assim mesmo! – insistiram. Seu Zé não entendeu nada, mas decidiu entregar o bicho.

– Meninos, eu não estou entendendo nada, mas vocês podem ficar com ele. Na verdade, vocês vão me fazer um favor levando ele embora. E é claro, não vou cobra-lhes nada.

Os garotos agradeceram e foram embora. Dias depois, o velho encontrou-os no centro da vila, felizes e sorridentes e a curiosidade apertou. Aproximou-se e sem rodeios, perguntou pelo finado bicho de estimação.

– Ora, a gente o rifou. – responderam sorrindo.

– Como o rifaram, meus filhos? O bicho não estava morto? Ninguém reclamou? – perguntou estupefato.

– Apenas o ganhador!

– E o que vocês fizeram?

– Devolvemos o dinheiro para ele!

A outra história conta que um taxista, já no final do expediente, passou em frente a uma famosa clínica psiquiátrica da cidade. No ponto de ônibus, três maluquinhos estavam esperando a condução, e o motorista viu ali uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Parou o carro e esticando o corpo pelo banco do carona, chamou os rapazes.

– Ei, amigos! Vocês estão indo para onde?

– Eu estou indo para a Ponte da Saudade! – disse um.

– Eu vou para o Centro! – disse o outro.

– Eu vou para Olaria! – disse o último.

– Entrem aí, faço um preço bem camarada. – afirmou sorridente e os maluquinhos embarcaram.

Depois de todos acomodados, o taxista não engatou a marcha e acelerou fortemente o carro, no mesmo lugar, por um breve período e gritou “Ponte de Saudade”! O maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Em seguida, acelerou o carro com vigor, virou o volante para cá e para lá e gritou “Centro”! O outro maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Por último, acelerou novamente o veículo, desta vez com mais empenho ainda, e anunciou que haviam chegado ao último bairro. O rapaz pagou e desceu do carro sem dizer nada, fez a volta e parou bem ao lado do motorista, que tinha a janela aberta e deu um tremendo tapa em seu rosto. O taxista fechou os olhos cheios de lágrimas e pensou: “Caramba, fui descoberto...”. E pra não deixar barato, o último maluquinho deu-lhe um pito:

– Isso é pra você aprender a não andar correndo tanto assim!

***

Moral das histórias: Há sempre alguém querendo se dar bem prejudicando os outros; em nossa sociedade, só é respondido quem reclama (então reclamemos!); e por último e não menos importante, quem é esperto demais e vive enganando os outros, quando menos esperar vai ser punido. E pode ser que nem assim aprenda!

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Como assistir a um filme na TV


Parece tarefa fácil, mas não é não. Quando eu era garoto, era mais difícil ainda, é bem verdade. Tínhamos um único aparelho, um caixote pesadíssimo, com partes de madeira, em preto e branco (em que se colocavam telas coloridas por cima), que sintonizavam – quando sintonizavam – apenas quatro canais. De vez em quando o pai subia na laje e virava a antena “espinha de peixe” para melhorar a imagem: “Tá bom agora?”, gritava lá de cima; “Tá bom!” / “Tá ruim de novo!”, a gente respondia.

Voltemos ao futuro. Hoje, a minha TV tem uma série de canais, mas é praticamente monopolizada por programas infantis. Mal consigo assistir a um jornal em minhas horas de folga. Alguns desenhos animados chegam a ter uma temática adulta, para envolver a família toda, inclusive. Então, se eu quiser assistir a um filme com a esposa na televisão, a melhor forma é depois de as crianças dormirem (assistir a um filme no cinema pode custar até umas 80 pratas, sabia?).

Primeiro passo: colocar os filhos pra dormir. 

Lanchinho, dentes escovados, oração, e uma historinha lida em grupo. Deus abençoe, durmam com Deus. Com as crianças deitadas, se você não fez isso antes, procure um filme bacana na grade de programação dos canais disponíveis.

Segundo passo: procurar um filme bacana. 

Filme escolhido, começa em cerca de meia hora. Agora o terceiro passo: preparar um lanchinho.

Com as crianças deitadas, filme escolhido e lanche preparado, sente-se com sua mulher no sofá e converse um pouco sobre as coisas do dia a dia: o trânsito ruim, o pito que ela precisou dar no mais velho, o gás que acabou no meio da preparação do almoço… Opa, isso é coisa rápida, as logos da produtora e associados já estão aparecendo na tela. E você precisa conseguir um outro momento para conversar com sua esposa sobre o dia a dia, com mais calma, não é? Isso é coisa séria.

O filme contava a história de um grupo de adultos de meia idade que voltam à cidade natal para um encontro da escola do Ensino Médio, ou High School, na película americana. O personagem principal era um dos únicos casados e vivia uma crise com a mulher, e a presença de ex-colegas de escola o deixava em situações embaraçosas. Uma comédia bacana. Esperem aí, o Jim vai falar alguma coisa: acabou de encontrar com uma moça de camiseta transparente e short curto, o cabelo amarrado em um pesado rabo de cavalo.

– Amor, baixe o volume, vamos acordar as crianças… – disse minha esposa. Não ouvi o que Jim falou.

Não reclamei e baixei logo o som da TV. As crianças, a essa altura já deviam dormir pesadíssimo. Não, espere aí: o mais velho está acordado, está se remexendo na cama.

Jim e os amigos combinaram uma festa, como nos tempos de escola. A tal moça, da qual ele foi babá quando jovem, é vizinha de seu pai e está dando o maior mole para ele e…

– Mãe…

– Você ouviu?

– Ouvi o quê?

– Estão chamando…

– Não tem ninguém chamando.

– Tem sim.

– Mãe…

– O que foi meu filho?

– …

– Posso ligar o ventilador?

– Pode, meu filho, pode sim. – me adiantei para concluir a conversa mais rapidamente. Aproveitei a desculpa do barulho do ventilador para aumentar um pouco mais o volume. Minha mulher acatou, sem se incomodar.

Caramba! Típica comédia adolescente americana: a coleguinha do Jim ficou peladinha. Bêbada, está atacando ele dentro do carro; Jim tenta se esquivar, sem sucesso, mas ela desmaia embriagada. Jim precisa de sua mãe… Espere aí, mãe?

– Mãe…

– Estão chamando de novo?

– Estão.

– Mãe?

– O que foi, meu filho?

– Me dá um copo de água?

– Sim, filho. Um copo de água e ele dorme. Com certeza. O copo de água não falha nunca. O Jim… porra, cadê o Jim? Já está falando com a esposa em casa. Não entendi o que ele disse, o assunto não tem pé nem cabeça. Vai ver fazia sentido com a cena anterior.

– Boa noite, filho!

– Boa noite!

– Boa noite, filho!

– Boa noite, pai!

Agora sim. O garoto dorme e a gente consegue ver, finalmente, o filme. Minha esposa acabou de comentar alguma coisa que aconteceu hoje; eu ouvi, mas não escutei. Na verdade, não faço a mínima ideia do que ela disse – e se eu perguntar, vou tomar um esbregue. Pergunto ou não pergunto? Não pergunto. Vamos ver o filme.

Jim, com problemas no casamento e tentado pela vizinha gostosa, pede conselhos ao pai. “Sai da minha casa!”. Ahn? Como assim “sai da minha casa”? Jim e o pai sempre se deram tão bem…

Sai da minha casa!

Você é um vagabundo!

Para com isso, olha o que você está fazendo!

Eu não estou nem aí…

A mulher berrava totalmente descontrolada com o ex-namorado, com o qual tinha um filho. Levantei-me do sofá e me aproximei da janela, afastando a cortina com a ponta dos dedos. Sim, era isso. Quando estavam juntos, se desentendiam com frequência, mas agora, após ele ter arrumado uma nova namorada, a mulher passou a ter crises de ciúme em público.

Some daqui!

Você está ferrada, sua vagabunda! Nem pensão ele dá para o filho!

Sentei-me novamente e aumentei o volume da TV. O pai de Jim o aconselhava, ele precisava se entender com a esposa, afinal de contas. Usou como exemplo a vida dele com a mãe de Jim, antes de seu nascimento. Viviam como jovens namorados, mas com a chegada do filho, tudo mudou. As prioridades são outras, inclusive o marido passa a ser uma segunda prioridade para a mulher e Jim precisava ser paciente e maduro para compreender a situação. “Vai embora!”

Não faz isso!

Veja os meus braços… você me agrediu! Vou te denunciar! Você está preso!

– Não é possível! – murmurei incomodado. – O síndico não vai fazer nada?

– Mãe…

– Você sabe… em briga de marido e mulher…

– Ninguém mete a colher? Mas isso aqui é um condomínio!

– Mãe?

– O que foi, meu filho? Vai dormir! – determinei gesticulando o controle da TV na direção do garoto.

– O que está acontecendo?

– Jim, você me agrediu!

– Não está acontecendo nada! Vai dormir!

– Nossa, como você é grosso!

– Eu não fiz nada. Você invadiu minha casa, está me fazendo passar vergonha diante de meus vizinhos e ainda arranhou os braços para me acusar.

– Pai, eu já não sei o que fazer!

– É só um casal brigando, vai dormir!

– Sabia que já passa das dez?

– Eu quero que se fooooooooooda, queridinho! Você, essa vagabunda e todos os seus vizinhos.

– Jim, estou apaixonada por você, vamos relembrar os tempos em que você cuidava de mim?

– Não aumente mais o volume.

– Vai adiantar o quê? O garoto já está acordado!

– Mande ela sair daí! Ela está com medo? Mande ela vir aqui fora!

– Vai embora!

– Eu só vou embora depois que ela sair daí e vier falar comigo. Aliás, vou começar a quebrar tudo aqui, até ela aparecer. E vou começar por esse carro preto…

Poxa vida, isso não tem hora para acabar não? Organizei-me para ver esse filme e a ex-mulher do cara ainda resolveu quebrar tudo. O síndico, a essa hora, está dormindo pesadíssimo e ninguém vai meter a colher nessa briga… opa… espere aí! Ela disse “carro preto”?

– Ela disse “carro preto”?

– Disse sim… – respondeu minha esposa com os olhos vidrados na TV.

– Mas o carro preto é nosso! – esbravejei, levantando de um salto.

– Mas… e o filme?

– Que filme?

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Ensaio sobre a juventude


Sorte a minha ter ingressado em uma das instituições mais tradicionais de Nova Friburgo. Em 2017, a Academia Friburguense de Letras completa 70 anos de fomento à Literatura, promovendo e difundindo a arte e cultura nestas terras altas.

Tomemos aqui o conceito etimológico do termo "tradicional". Tradição vem do latim traditio, tradere, que significa "entregar", "passar adiante", ou seja, aquilo que é transmitido de geração em geração. Na academia, as idades variam na faixa dos 30 aos 80 anos, assim, são diversas gerações que convivem harmoniosamente, trocando experiências de vida e literárias, e o enriquecimento e amadurecimento pessoal é preciosíssimo.

Em uma iniciativa de vanguarda, a Casa de Salusse alterou seu estatuto e criou o Anexo Jovem, um espaço com, 15 cadeiras que homenageia nas patronímicas antigos membros do sodalício, destinado a jovens entre 16 e 29 anos. Em consequência da abertura de vagas, houve a posse coletiva das cinco primeiras cadeiras pelos escritores Brenno Castro, Thales Amaral, Ania Gevezier, Isabelle Sarruf e Rachel Ventura.

Foi uma iniciativa magnífica da AFL e dá orgulho saber que fiz parte disso. E esse orgulho precisa transbordar nas palavras de um ensaio. Quantas trocas de experiências serão possíveis? Quanto poderemos legar, quanto poderemos aprender!

Assim, como é de praxe na instituição, cada novo acadêmico é saudado por outro mais antigo durante a cerimônia, e eu fui o padrinho do jovem Thales, de apenas 20 anos e que publicou seu primeiro livro aos 16. Também eu, aos 16, rascunhava histórias em cadernos, mas desisti da literatura por haver considerado que sua produção estava atribuída aos intelectuais de renome, muito distantes da minha realidade de aluno de escola pública. Só retomei o antigo sonho aos 25, quando mudei a forma de pensamento e a postura diante do tema. Ingressei na academia aos 34; eles, entre 17 e vinte poucos anos (como o Fábio Jr.). Será que em minha adolescência eu teria desistido se tivesse tido o apoio que precisava? Possivelmente não, assim como eles não desistirão, e podem ir muito mais além.

Que mais iniciativas como esta surjam em outras academias, em outras instituições dedicadas a arte e cultura. Que cada vez mais jovens se interessem não apenas pela leitura, mas pela produção literária e que isso possa estimular o pensamento crítico e alimentar sonhos. Porque todos temos sonhos. Porque todos somos jovens e, seja aos 17 ou 80 anos, temos muito o que aprender e ensinar nessa vida; mais a aprender do que ensinar, inclusive. Aliás, na vida, tudo tem seu preço, seu valor. E só queremos dessa vida é ser feliz.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Literatura Urbana


O que é a Literatura? Onde vive? Do que se alimenta? Essas e outras respostas na sexta-feira, no G* Repórter.

Meus amigos devem achar que sou um tanto maluco. Vá lá, talvez o escritor seja um tipo de patologia psicológica. O fato é que eu vejo literatura em todo lugar. Sim, em todo lugar. Em paredes, muros, paralamas de caminhão...

Isso mesmo! Ou você acha que a literatura está só nas grandes editoras, cara pálida?

Sinto desapontá-lo, mas embora tentem fazer acreditarmos nisso, não. A Literatura é tão variada em gêneros e plataformas que seria no mínimo injusto desconsiderá-las. Veja o caso das poesias de rua, essa literatura urbana pichada nos muros com a assinatura de Gilson. É poesia, é literatura, da forma mais natural possível, publicada e acessada por muitos há anos em Nova Friburgo. Merecia um Jabuti pelo conjunto da obra.

Infelizmente, ainda temos muito preconceito com o que não circula pelas grandes editoras, pela chamada Literatura Tradicional, os grandes nomes. Há uma espécie de hierarquia consentida entre essa e o que é publicado em editoras por demanda, plataformas digitais, por autores independentes, pela literatura oral, nos muros e paralamas de caminhão. Aliás, ela nasceu nua e livre, nas paredes das cavernas e ao redor de fogueiras. A Literatura é livre e não cabe em capas, rótulos ou em prateleiras. Ela é livre e está em todo lugar.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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Prefácio do livro O Pacto, de George dos Santos Pacheco

 
É um autor em ebulição. Quem leu Uma aventura perigosa (Buriti, 2015), agora, com a oportunidade de ler O pacto (2017), perceberá o salto que George dos Santos Pacheco deu em sua empreitada infatigável pelo terreno da ficção, no caso, do romance, forma literária em que a imaginação de um escritor é colocada à prova, e, nesse desafio, o autor levou a melhor.

Se no romance anterior a estrutura simples não comprometia a narrativa, e mesmo ali a imaginação impunha-se já panorâmica, neste, o leitor de George irá se deparar com um autor esforçando-se para encontrar a melhor maneira de contar sua história, e ele, claro, a encontra ao dar voz não apenas ao narrador personagem tradicional, mas a dois personagens, que, cada um a seu tempo, conduzirão a narrativa, como orienta a cartilha da pós-modernidade, e é aí, justamente, que George acerta.

Um pouco de enredo? Um anti-herói depara-se diante de ninguém menos do que o próprio Capeta. É que Théo, personagem principal, não é flor que se cheire e, num acórdão com o Beiçudo, regressa da morte desmemoriado e, então, traz o leitor para dentro de sua vida. Como a memória dele está em pane, as coisas vão acontecendo sem que ele e o leitor possam entender bem quem é esse personagem-narrador em busca de saber exatamente quem é. Como um quebra-cabeça, as peças só vão encaixar-se lá pelo fim da segunda parte do romance, quando entra, então, Bidu, o segundo personagem-narrador de O pacto.

As cenas de sexo estão de volta, mas não tão explícitas como no romance anterior. Ménage à trois, chifres, estupros, pedofilia têm seu lugar em O pacto, nem sempre de forma gratuita, mas percorrendo um dos caminhos da literatura contemporânea em que o sexo é menos sugerido e mais levado ao primeiro plano narrativo, sem pudor, sem censura, escancarando-o. Nenhum demérito, mas o contrário: banir o sexo da literatura seria insistir em um comportamento vitoriano que não diz muito a um século XXI em que o sexo é esmiuçado com um único clique; a internet está aí, e não há por que torcer o nariz para o sexo que, até então, na literatura, vinha escondido lá em meio as lianas narrativas em que muitos leitores nem sequer o percebiam. Por que não lembrar da cena de sexo oral de Basílio em Luísa ou das travessuras, digamos assim, de Bovary e de Belle de Jour? 

Mas o autor não precisa de sexo para fazer o leitor atravessar seu livro de um lado a outro. O enredo encarregou-se disso. Desde Aristóteles, as peripécias são reconhecidas por suas surpresas, e a coisa não poderia ser diferente aqui: do contato de Théo com – com Houaiss, tome nota – Azucrim, Canheta, Coisa à toa, Mofento, Pé-cascudo, Pé de cabra, Pé de gancho, Pé de pato, Rabudo, Romãozinho, Sapucaio, sim, o Mofino tinhoso, até as máscaras que vão caindo, uma a uma, a narrativa segura-se, deslizando suave como um carrinho de rolimã ladeira abaixo. E nós, apoiando-nos confortáveis, anexados ao brinquedo, de capacete e tudo, vamos descendo a ladeira com George, para depois subir e novamente descer, e subir, num ritmo sempre capaz de fazer os leitores voltarem ao ponto onde pararam a fim de descobrir cada vez mais o que fez Théo antes de perder a memória.

Palmas ao autor, que com O pacto demonstra claramente o que é o passo adiante dado na carreira de um escritor que, sempre insatisfeito, buscará a forma mais adequada para expressar o que pretende contar debaixo do véu artístico da ficção, algo que só o romance é capaz de oferecer a um artista – como o George, o romancista em ebulição por trás deste livro que você, leitor, tem em mãos. Boa leitura!
Renato Alessandro dos Santos

Serviço:

O Pacto, de George dos Santos Pacheco
Clube de Autores
301 páginas
R$ 36,32

Lançamento: 04 de abril, às 18 horas

Onde: Cafeteria Grão Café. Rua Monte Líbano, 34, Centro – Nova Friburgo – RJ
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