Era uma casa agradável, nas cercanias de Lumiar, em Nova Friburgo. Havíamos nos mudado há cerca de dois meses para a pequena vila no interior do Estado, em busca do sossego que não se vê numa cidade grande como o Rio de Janeiro. O lugar parecia parado no tempo: os morros ocupados por plantações de banana ou inhame, as cachoeiras, a fumaça subindo em torvelinhos nas chaminés dos fogões a lenha e os passeios a cavalo davam ares coloniais muito bem explorados pelos donos das pousadas.
Depois visitar várias editoras com meus manuscritos à mão, usando todo tipo de artifício para convencer que meus originais eram um bom investimento, consegui ser contratado por um grupo e publicar meu livro. O casarão em estilo neoclássico, construído há mais de cinquenta anos, porém muito bem conservado, era tudo que eu precisava para escrever o romance que os editores pediram, após a boa recepção pela crítica e público do meu primeiro trabalho. Todos os seus cômodos eram muito grandes, seis ao todo, as paredes eram pintadas de branco gelo, a maioria das janelas e portas com tinta a óleo azul real; o piso era feito de tábua corrida de pinho de riga, assim como o forro do teto.
Minha história deveria se passar no início do século XX, sobre um jovem acometido pela tuberculose que se refugiaria no interior para tratamento. E eu buscava me aclimatar com toda essa atmosfera no bosque fechado em que se encontrava o casarão, distante cerca de 20 minutos do centro da vila, muito próximo, felizmente, do sonoro riacho que davam um charme todo especial às noites frias de inverno.
Cláudia largara o emprego na loja de calçados para me acompanhar, o que a editora me pagava era muito mais que o dobro de seus rendimentos. Dormia serenamente ao meu lado, os cabelos avermelhados e brilhantes espalhavam-se pelo travesseiro e o arfar de seu peito era lento e ritmado. A luz fraca do abajur iluminava parcialmente o rosto sardento, mas era suficiente para folhear as páginas de “Dom Casmurro”, as quais eu devorava avidamente. Bento sentia falta de um filho, “um triste menino que fosse, amarelo e magro, mas um filho”. Eu já lera a publicação anteriormente, mas agora, com a expectativa de um novo livro, as letras de Machado de Assis ganharam novo desenho, nova interpretação, tudo era diferente. Ler, afinal, é um exercício maravilhoso em que nós, que estamos deste lado da folha, influenciamos os significados que se apreendem da leitura, por mais que tudo já esteja escrito e acabado. Um mesmo homem não atravessa o mesmo rio duas vezes, porque nem o homem, nem o rio serão os mesmos. De igual forma, um mesmo homem também não lê um mesmo livro duas vezes, pois assim como o homem não é o mesmo que antes, o livro, consequentemente, também não o será.
Suspirei e ajeitei o óculos que escorregava para a ponta do nariz. A vista pesava. Olhei o relógio de pulso, passava das duas da manhã e o silêncio da noite, acompanhado pelo coaxar dos sapos-martelo, o vento nas folhas das árvores e a água do rio batendo nas pedras foi interrompido pelos chamados do pequeno Bernardo, o meu anjo de cinco anos que dormia no quarto ao meio do corredor comprido que atravessava completamente o casarão, no segundo andar.
– Pai... pai... – chamava sua voz, que se aproximava de onde eu estava. A luz do abajur piscava, rareando.
– O que foi, meu filho? – sussurrei, para não acordar Cláudia.
– Pai... pai... – repetia Bernardo, a voz com um tom choroso ainda se aproximando. A luz continuava falhando e eu abri a gaveta do criado-mudo a fim de buscar uma lanterna guardada para o caso da falta de energia que era comum no lugarejo.
– Diga, meu filho! – sussurrei novamente, emprestando, contudo, maior vigor à voz. Tirei o óculos e o coloquei junto com o livro sobre o tampo do pequeno armário, descobri-me e calcei as sandálias de borracha. A porta se abriu lentamente, Bernardo estava ali limpando as lágrimas tímidas que corriam pela face macia.
– Pai...
– O que aconteceu, meu filho? – perguntei indo a seu encontro.
– Tem um bicho, pai... tem um bicho no meu quarto... – explicou o garotinho, cabisbaixo. Vestia um pijama azul claro de moletom, os finos cabelos loiro acinzentados divergiam sobre os rumos que queriam tomar.
– Um bicho, filho?
– Um bicho, pai... tem um bicho no meu quarto... – repetiu ele.
– Onde, Bernardo? – perguntei ao dar-lhe um beijo na testa fria.
– No meu quarto, pai... no teto... – respondeu fungando.
– Está tudo bem, meu filho. Papai vai lá dar uma olhada... – disse ao tomar o corredor para ir até seu quarto. Minhas pegadas estalavam a madeira sob meus pés, um rangido grave que podia se fazer ouvir em todos os cantos da casa, em plena madrugada. Chegando à sua porta, voltei meu olhar em sua direção e ele não estava mais lá, provavelmente teria deitado ao lado de sua mãe. De qualquer forma, prossegui.
Empurrei a porta entreaberta, a folha de madeira rangeu enquanto fazia o movimento. A luz fraca piscou até se apagar completamente e eu cliquei várias vezes o interruptor, inutilmente. Acendi a lanterna e corri o facho pelo interior do cômodo. Um arrepio correu minha espinha, e eu tremi de pavor: sobre a cama estava um pequeno corpo estraçalhado e todo o quarto havia sido tomado por manchas viscosas de um líquido vermelho. Ergui a luz até o teto e meus músculos retesaram, todo meu corpo foi tomado por uma intensa angústia. Cristo, senhor! Tentava recuar, mas as pernas não me obedeciam, pesadas como se presas a blocos de cimento. Arquejava lentamente, presa ao teto, uma criatura medonha, de corpo humanoide, porém, com os membros armados como os de uma aranha, a superfície de seu corpo brilhava como banhado em sangue, e as veias estavam saltadas, pulsando no mesmo ritmo de sua respiração. O bicho tinha feições demoníacas, grandes olhos negros numa cabeça abaulada, a boca de enormes dentes pontiagudos escancarada de um extremo a outro do rosto exibia uma língua bífida que pendia para o lado esquerdo.
– Bernardo! Cláudia! – gritei, retornando de meu tetanismo involuntário. Recuando e voltando correndo pela galeria, cheguei até meu quarto e vasculhei-o com a luz da lanterna. Não havia ninguém lá, para meu desespero. Onde estariam minha mulher e filho? Eu precisava agir rápido... eu... eu... precisava de uma arma. Sim! A carabina guardada na dispensa da lavanderia poderia me ajudar, mas ficava do outro lado da casa. Saí do quarto apressadamente, mas no momento em que eu ia tomar a escada avistei a criatura sob o umbral dos aposentos de Bernardo. Ela virou a cabeça em minha direção e tombou, como se reconhecesse a presa. Fiquei paralisado, mas como ela veio em minha direção rapidamente, desci as escadas em reação, tropeçando nas sandálias de borracha que embolaram sob meus pés. Rolei degraus abaixo, batendo a cabeça, braços e pernas no guarda corpo, chegando ao hall contorcendo-me e gritando de dor. Meu pé direito estava luxado, completamente torcido para fora e eu não podia movê-lo, provavelmente os ligamentos haviam se rompido com a torção. A lanterna caída afastada de mim iluminava o canto da parede e então pude novamente ver Bernardo, aos prantos.
– Pai... pai... o bicho... – alertava o pequeno.
– Fuja, meu filho! Fuja! – gritei e tentei me levantar, com muita dificuldade. A luz da lanterna falhou e apagou, e não pude mais ver o garoto. Caminhei escorando-me na parede, buscando o corredor inferior que levava à cozinha e mais adiante à lavanderia. Eu me arrastava tentando conter os gemidos e o assoalho rangia em meu encalço. Tentei imprimir mais velocidade aos meus movimentos, mas a dor era insuportável, era humanamente impossível ser mais rápido naquele estado. O sangue escorria pelo nariz, e pelo supercílio esquerdo, embotando a vista. A criatura parecia cada vez mais perto, assim como a porta da cozinha, que eu alcancei e fechei atrás de mim.
No centro da cozinha havia uma grande e pesada mesa de madeira, disposta em sentido longitudinal. O luar entrava pelo basculante iluminando o piso antigo e gasto, manchado de sangue coagulado, num rastro de passos que seguiam até o final do cômodo, na altura da porta da lavanderia, cuja borda também estava manchada de vermelho. Era possível ouvir o sofrimento de gemidos, acompanhados de pequenas batidas irregulares em madeira. Arrastei-me lentamente na direção dos sons, voltando vez em quando meu olhar para trás. A sensação de estar sendo seguido era nítida e real, embora eu não avistasse ninguém.
Na maçaneta da porta da lavanderia estava amarrada uma corda de sisal que subia retesada até seu topo. Abri-a lentamente, o conjunto de fios torcidos terminavam do outro lado, em um nó de forca onde ainda tremia o corpo de Cláudia, batendo os calcanhares na madeira. O sofrimento estava estampado em sua face, um esgar tétrico em que a língua descia roxa pela boca aberta exageradamente, assim como os olhos saltados a me fitar, um misto de medo, agonia e dor.
– Cláudia! Não! Fala comigo! – eu gritava sacudindo-a em vão.
– Pai... o bicho... – eu ouvia a voz chorosa de Bernardo a me alertar. Recostei-me na parede e cobri o rosto com as mãos, desesperado. O que estava acontecendo, afinal, naquela casa amaldiçoada? Uma pancada forte na porta da cozinha me fez lembrar da carabina e me pus em movimento novamente.
Outra pancada.
– Pai... o bicho...
Abri o armário rapidamente, a arma estava envolta em um trapo sujo e na prateleira inferior havia uma caixa com cartuchos. Desembrulhei-a e sentando-me ao chão, municiei e carreguei o armamento.
– Pai... o bicho, pai...
Um grande estrondo derrubou a porta da cozinha e o monstro veio lentamente ao meu encontro. Eu podia ouvir sua respiração pesada se aproximando, os passos rastejando ásperos pelo piso.
– Pai... o bicho...
Sua imagem então se postou à minha frente, inclinando a cabeça para um lado e para o outro. Apontei a arma com mãos fracas e trêmulas e puxei o gatilho, acertando em cheio os vasilhames de mantimentos sobre a tábua disposta na parede da pia. Eu não tinha muito tempo e continuei pressionando o gatilho emperrado, impossibilitando-me de fazer outro disparo. Eu tremia em minha aflição, não havia para onde fugir e eu já podia sentir o sabor amargo e podre da morte em meus lábios. A criatura, enfurecida, deu um forte grito e pulou sobre mim.
Abri meus olhos, assustado.
Cláudia dormia serenamente ao meu lado, os cabelos avermelhados e brilhantes espalhavam-se pelo travesseiro e o arfar de seu peito era lento e ritmado. Olhei o relógio de pulso, passava das duas da manhã. O coaxar dos sapos-martelo, o vento nas folhas das árvores e a água do rio batendo nas pedras acompanhavam o silêncio quase tangível da noite. Pressenti a presença de alguém e me virei.
– Pai... o bicho, pai... – alertou Bernardo e saltou sobre mim. Seu rosto adquiriu feições demoníacas, com olhos negros repugnantes; os enormes dentes pontiagudos, ligados entre si por saliva grossa, cortavam a carne como navalha quente.
George dos Santos Pacheco

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