Tarde demais para Suzanne


Acordei por volta das sete horas. À contragosto, é verdade. Tomei um banho bem quente - daqueles em que a pele fica avermelhada - escovei os cabelos, pus um vestido chemisier curto negro e mocassins pretos, e fui tomar café. Meus pais já tinham saído para trabalhar e nem saberiam se eu fosse à escola ou não. Acho que não se importavam muito com isso, aliás. Como filha única, sempre tive tudo que quis, nenhuma de minhas vontades era contrariada. Se isso foi bom? Não sei. Acho que sim, mas faltava alguma coisa. 

Deixei a louça do café na mesa e fui escovar os dentes. Depois passei um batom bem vermelho e brilhante, e maquiagem nos olhos. Queria me sentir bem sensual neste dia. Não que eu não me sentisse assim habitualmente, mas esse dia seria diferente. 

Olhei para minha bolsa com os cadernos. Não, eu não os levaria em meu passeio. E para ser sincera, não notariam minha falta na classe. Sou bonita, sensual, interessante, mas sou daquele tipo de pessoas que passam despercebidas na multidão, e eu não me importo com isso. É, talvez eu me importe um pouco. 

Saí de casa sem trancá-la e fui caminhando calmamente rumo ao centro da cidade. No caminho, algumas pessoas corriam, fazendo exercícios, outras liam jornais com as barbaridades mais macabras de todos os tempos do último dia, algumas bebiam nos bares, outras saíam benzendo-se de igrejas e outras tantas sorriam, gargalhavam. 

Senti vontade de gritar: Estão rindo de quê?, mas não gritei. O mundo está repleto de guerras, assassinatos, fome e doenças, numa dimensão muito maior do que se pode noticiar. Eu não riria por isso. Tem gente morrendo aos montes nos hospitais e sabe, ninguém parece se compadecer delas. Tem um mendigo logo ali na calçada e as pessoas passa rindo e conversando por ele, como se ele fosse uma pedra, ou árvore, ou qualquer objeto inanimado. Não estão nem aí para ele, acham que ele escolheu ficar na sujeira, que tudo faz parte de um plano maquiavélico para usurpar o dinheiro daqueles que tanto batalharam para tê-lo. Isso é um absurdo! - gritei para mim mesma, e minha voz não deu um passo além de meus dentes. 

Tive vontade de chorar. Atravessei a rua abarrotada de carros que buzinavam impacientes e irritados com os outros carros que não se moviam atrás do sinal verde. A buzina é um instrumento mágico que faz desaparecer da face da Terra todo meio de transporte que empacar no trânsito. Mas a desse pessoal aí deve estar com defeito, coitados. Do outro lado da rua havia um casal de namorados, felizes, que se beijavam e também riam. Porque estão felizes? Eu não vejo motivo nenhum para isso. Na primeira oportunidade que ele tiver, queridinha, ele vai te trair. Foi assim comigo, eles são todos assim. 

Um dia eu acreditei em felicidade, no amor. Meu primeiro namorado eu conheci na escola, assim como os outros. Eu queria carinho, eu queria ser amada, mas rapidamente percebi que ele não estava nem aí para minha conversa interessante e meus sentimentos. Me traiu com uma garota de minha turma, uma vagabundinha que deixava ele por as mãos onde eu não deixava. Tudo bem, ele não presta. Os outros também não. O segundo não me traiu - até onde eu sei - mas me largou porque eu não trepei com ele. Eu não estava preparada para isso... Trepar. Que coisa feia, não é mesmo? Mas é assim. Não se trata de fazer amor, carinho, aconchego. É algo puramente carnal, desprovido de sentimentos. Instinto... Foi então que eu decidi trepar, pronta ou não. Trepei com um, dois, três, até que encontrei alguém que valia à pena. Mas ele também me traiu, mesmo eu lhe dando o melhor sexo do mundo, e sendo a namorada mais carinhosa e submissa que podia ser. Ele não tinha necessidade disso, pelo menos racional. Não mesmo. Talvez seja o código genético... Mas eu não quero saber. Desisti deles. Desisti de tudo. A vida é um trem que passa rápido e não pára para ninguém descer. Então resolvi pular... 

Atravessei outra rua, já no centro da cidade e entrei em um prédio comercial bonito, bem decorado, que devia ter uns quinze andares. As pessoas entravam e saíam como em um movimento automático, e eu, no meio deles, era apenas mais uma. 

Não foi difícil chegar ao último andar e ter acesso à cobertura, que não passava de uma laje com restos de material de construção e caixas de algumas lojas do prédio, expostas ao tempo. Aproximei-me do batente e olhei para baixo. A confusão de gente e carros não se alterava. Desabotoei meu vestido e deixei-o cair, e sentir o vento bater forte em meus seios foi uma sensação gostosa. Os seios dos quais eu sempre me orgulhei e de que nada me serviram. 

Dei outra olhada para baixo, e um passo precipitando-me no abismo vertiginoso da morte. Estava numa queda sem volta, em alta velocidade, mas curiosamente, tudo parecia estar em câmera lenta. Vi os pombos voando espantados comigo, as pessoas nos escritórios dos outros prédios. Algumas correndo, outras nos bares... Algumas lendo jornais, outras saindo de igrejas, casais de namorados felizes, gente sorrindo... Tudo parecia perfeito, e apenas eu distoava disso tudo. 

As lágrimas brotaram e embaçaram um pouco meus olhos. Como eu queria ser feliz como aquelas pessoas lá embaixo! Como eu queria me amar a ponto de me exercitar e cuidar de mim e do meu corpo! Ler notícias ruins nos jornais, e ainda assim encontrar motivos e força de vontade para mudar tudo! Me divertir com amigos no bar e celebrar as coisas boas da vida. Sorrir! Eu queria sorrir. Queria conversar com Deus, como aquelas pessoas lá embaixo fazem todos os dias. E eu queria ter filhos, e ensinar-lhes tudo isso... Foi nesse momento que vi minha mãe, caminhando distraída na calçada. Oh não! Ela não merece ver isso! Meu coração batia mais forte e meus músculos retesaram. 

Fiz menção de olhar para cima, mas o vento me impedia. O chão já estava bem próximo e as pessoas me olhavam assustadas, apontando o corpo nu que caía do céu, sob a forma de um protesto contra o mundo materialista, apegado ao sexo e ao dinheiro. Eu estava arrependida. A vida é muito preciosa para terminar desse jeito. Mas não havia chance para desistir, era tarde demais para mim... 

Fechei os olhos aguardando o impacto. Senti frio, muito frio e abri os olhos novamente. Estava nua sobre a cama, o travesseiro molhado pelos meus cabelos e as lágrimas em que eu havia me debulhado até adormecer. Foi uma noite terrível. Meu namorado terminou comigo ontem, e desde então, sei apenas chorar. Tive vontade de morrer! 

Levantei-me cedo, tomei um banho - onde meu pranto era lavado pela água quente - e deitei-me aqui, chorando sem parar. Mas agora que acordei sinto-me bem melhor. Eu o amo, mas não vou me destruir por não me querer mais. Eu não mereço isso, assim como aqueles que me amam de verdade. O que realmente importa não são os problemas da vida, e sim a maneira de lidar com eles. Aliás, ela é muito preciosa para ser desperdiçada de qualquer jeito, e não é tarde demais para um recomeço. Nunca será tarde demais. 

George dos Santos Pacheco

* Publicado na Revista Êxito Rio, em 23/04/2015.

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