Ah, se fosse o Chico Buarque!


Uma vez tentei por minha biografia no Wikipédia. Tentei mesmo! Achei que por ser escritor – ainda que em começo de carreira – seria importante ter minhas informações em um local em que os meus leitores – ainda que poucos – pudessem ter fácil acesso, e o Wikipédia seria o site mais adequado para isso, até pela importância e credibilidade que ele adquiriu ao longo do tempo, desde o seu surgimento. 

Mas foi aí que surgiu meu algoz, o moderador. Um deles, na verdade. O camarada votou minha “contribuição ao Wikipédia” para exclusão. Ele entendia que o meu material infringia as regras do site, porque era eu mesmo que fazia a postagem, e isso configurava publicidade. É… tudo bem, minha biografia em um site respeitado como o Wikipédia até funcionaria como publicidade, mas essa não era minha intenção quando fiz minha “contribuição”. Pelo menos num primeiro momento. 

Mas vejam como são as coisas. Na mesma época o Chico Buarque havia lançado “Leite Derramado”, e lá estava o título com sua sinopse e seus links na enciclopédia online. Ora, mas então o livro do Chico não era publicidade? A biografia do Chico não é publicidade? Pois é. 

Não confundam, contudo, minha observação. Não tenho nada contra o Chico Buarque. Aliás, não há como não reconhecer a qualidade do seu trabalho, de sua música, de sua trajetória. Até porque se ele não fosse bom mesmo, não teria chegado tão longe. Faço ideia de como foi difícil. Mas será que lá na época dos festivais, deram a mesma atenção a ele como dão hoje? Lá naquela época, um simples rapazinho com um violão na mão e um monte de ideia na cabeça? 

O problema é que costumamos dar muita atenção para aqueles que já tem seu espaço garantido, e ignoramos aqueles que estão buscando seu lugar ao sol. Há talentos por todos os lados, em todas às áreas, não somente no campo artístico, mas preferimos elogiar e dar oportunidades, muitas vezes, àqueles que já podem caminhar sozinhos. 

E se o Chico montasse um fast-food? 

E se o Chico participasse de uma coletânea de contos policiais? 

E se o Chico participasse de um concurso literário numa cidadezinha do interior?

E se ele montasse uma banda de rock? 

Isso tudo depende. Se fosse hoje, ou lá na época dos festivais. Você, amigo leitor, está livre para fazer qualquer coisa. E será difícil, não tenha dúvida. O segredo – e isso se confirma há séculos – é não desistir. Caímos, para nos levantarmos novamente. Persista sempre, alguém vai te dar atenção, em algum momento. Quer escrever num blog? Vá, faça isso! Quer tocar numa banda? Quer ser dentista? Quer montar um fast-food? Vá em frente, meu amigo! As maiores limitações estão apenas em sua cabeça.

Mas ah, se fosse o Chico Buarque!

George dos Santos Pacheco

* Publicado na Revista Êxito Rio, em 20/03/2015. 

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