Moleque bom de mira

 
Pedrinho era um moleque muito do atrevido. Loirinho, do rosto salpicado de sardas e sonso. Ia sozinho para a escola todos os dias pela manhã, vestido de camisa branca de malha, bermuda azul ferrete e kichute, com os cadarços amarrados em torno da canela. Voltava próximo ao almoço, ofegante e com as bochechas coradas de tanto correr pelo caminho, com um belo e grande sorriso sapeca. 

Lá pelo meio do percurso encontrava o Bené, que era mais sonso ainda, menos atrevido, porém. Parceiros de aventuras, e amigos inseparáveis, roubavam frutas no quintal dos outros, davam nós nas mangas dos agasalhos das meninas, punham pedras nas mochilas dos coleguinhas. Não havia limites na mente destes dois diabretes, que pareciam passar o dia maquinando suas traquinagens. Certa feita, deram um tapa no lombo de um cavalo magro que pastava à beira da rua e o bicho fez uma confusão danada, derrubando tudo que encontrava pela frente, parando apenas numa cerca, por não ter mais para onde ir. E na ocasião, Pedrinho não escapou de levar uma boa espinafrada do pai. 

Foi então que, Pedrinho e Bené voltando da escola, passaram em frente a uma oficina. E o loirinho endiabrado percebeu que um Fusca caramelo fazia lanternagem há mais de uma semana, sem o parabrisa dianteiro. 

– Duvida que eu acerte uma pedra lá dentro do Fusca? – disse o moleque. 

– Duvido... – desafiou o colega, e Pedrinho não perdeu tempo. Catou uma pedra no chão, mirou e mandou com força, lá do meio da rua. O que ele não contava é que o lanterneiro já havia terminado o serviço, e o vidro estava tão limpinho que parecia nem existir. A pedra bateu no capô, ricocheteou e estilhaçou o parabrisa do fusquinha. 

Quando viu a besteira, o moleque não pensou duas vezes e saiu em disparada, batendo os calcanhares na bunda, e abandonando o amigo tetanizado para trás. Chegou em casa esbaforido, e deu de cara com o pai, parando bruscamente à porta. O velho, um rodoviário que estava em greve, bruto nos modos e no falar, estranhou a atitude do menino e foi logo o interrogando. 

– Que cara é essa, moleque? – perguntou de forma grave o homem. O garoto franziu o cenho, ao lembrar-se do caso do cavalo e da mão pesada do pai, emendando de cara. Na hora do sufoco, a gente nem pensa direito no que falar.
 – Eu falei para ele não “tacar”, pai, mas o Bené é teimoso, e além do mais, tem uma mira desgraçada! 

Pedrinho travesso, moleque sonso e atrevido. Mirou no Fusca e acertou no amigo.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com

* Publicado na Revista Êxito Rio, em 10/02/2015.  

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