Sem sentido



Em nossos tempos, o corre-corre do cotidiano tem assumido níveis catastróficos. Executamos um sem número de atividades ao mesmo tempo, e ao final do expediente, estamos completamente esgotados. 

Esses dias, cheguei do trabalho e sentei-me ao sofá. Fechei os olhos e suspirei, enquanto descalçava os sapatos e relaxava. Liguei a TV e comecei a procurar algo de interessante para assistir. A maioria dos canais abertos exibiam em seus programas cenas de intelectuais, políticos, atores e apresentadores derramando um balde de água gelada na cabeça. “Que loucura é essa?”, pensei. Continuei zapeando até desistir da TV. 

Fui para a internet. Acessei uma rede social, e lá estavam todos eles novamente: intelectuais, políticos, atores e apresentadores se tremendo ao receber o choque térmico. Mas o que é isso? Eles estão em todas as partes? A onipresença foi distribuída e nem me avisaram? E na internet era ainda pior: além dos já citados, molhados, gelados e possivelmente resfriados, havia pessoas comuns realizando o mesmo feito. Além dos piores momentos: cenas do banho gelado que deram errado (que na verdade era os melhores, porque eram os mais engraçados). 

Bem, para você, querido leitor de um futuro distante, que encontrou esse texto em uma garrafa boiando no mar, ou em uma cápsula de liga metálica nas proximidades do Cinturão de Kuiper, e não está encontrando sentido nenhum nisso, vou explicar. 

No longínquo ano de 2014, mais de 28 milhões de pessoas postaram, comentaram e curtiram esse assunto nas redes sociais. Tudo começou em Boston, nos Estados Unidos, quando Pete Frates, de 29 anos, foi diagnosticado com Esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa, evolutiva, irreversível, incurável, e incapacitante do sistema nervoso, que se caracteriza pela lesão degenerativa dos neurônios motores, atrofiando os músculos e podendo paralisar completamente o doente em apenas um ano. 

Pete assistiu a um vídeo do jogador de golfe Chris Kennedy (para uma campanha filantrópica, com banho de água e gelo) e gostou da ideia, postando-o e desafiando por escrito dez pessoas. O desafiado precisava escolher: ou fazia uma doação para as pesquisas sobre “ELA”, ou levava um balde de gelo na cabeça. 

Foi um sucesso. Cerca de US$ 62 milhões já foram arrecadados nos Estados Unidos, bem distantes, contudo, dos R$ 400 mil no Brasil. 

Ah, então, agora faz sentido esse negócio de água gelada na cabeça. Ou não. Pelo menos em terras tupiniquins, o balde d’água – que era bem sério – virou uma brincadeira de internautas e já surgiram, inclusive, outros desafios, como as mulheres postarem fotos sem maquiagem, e os homens com maquiagem. A questão é que o propósito nobre do desafio já se perdeu, como em tantas outras situações já vivenciadas por nós. Basta fazer uma breve reflexão para perceber que em nossa sociedade, muitas ações e intenções com propósito elevado perdem sentido no meio do caminho. Querem ver um exemplo gritante? A palavra é interatividade. 

Consta no dicionário: 

“Interatividade: adj. Que faz referência a interação; em que há ou ocorre interação. Comunicação. Que faz com que haja interação entre o indivíduo e a fonte e/ou emissor: celular interativo.” 

“Interação: s.f. Influência recíproca: a interação da teoria e da prática. Diálogo entre pessoas que se relacionam ou que possuem algum tipo de convivência. Sociologia. Agrupamento das relações ou das ações que se efetivam entre os indivíduos (pertencentes a um determinado grupo) ou entre os grupos de uma mesma sociedade. Psicologia. Fenômeno que permite a certo número de indivíduos constituir um grupo e que consiste no fato de que o comportamento de cada indivíduo se torna estímulo para um outro.”
 
Pois é, os termos acima perdem cada vez mais seu sentido original, à medida que a tecnologia avança. Interatividade virou sinônimo de interação, mas via internet. Quando não havia celulares com as facilidades que nos oferecem, as pessoas sentavam-se uma ao lado das outras, em ônibus ou praças, e puxavam papo, interagiam, se conheciam. Atualmente, o que mais se observa na coletividade, são pessoas segurando um aparelho de telefonia móvel, deslizando o dedo para cima e para baixo, rindo sozinhas, ou ouvindo música. É absurdamente provável que muitos adolescentes conheçam mais pessoas na rede do que pessoalmente. 

O que o mundo está se tornando? Isso vem acontecendo em nossas próprias casas: pai, mãe e filhos, cada um com seu tablet, notebook e similares, cada um em um canto. Ninguém mais conversa, não se fala mais como foi o dia, as refeições são feitas no sofá da sala, ou à mesa, mas com a TV ligada. Talvez, num futuro bem próximo, os filhos sejam feitos com pen drives e entradas USB, e virão ao mundo pelas impressoras. 

Todas essas facilidades, e-mails, redes sociais, celulares com TV, música, internet e rádio, estão nos escravizando. Aqueles filmes futuristas em que as máquinas desenvolveram uma inteligência artificial e dominaram os humanos, não parecem tão absurdos observando por essa ótica. Esse tempo, terráqueos, já chegou e nem nos demos conta. E o grande trunfo deles é que somos e estamos distraídos, além da nossa incrível capacidade de banalizar tudo que tocamos: ações, relações, interações e representações sociais. Acreditem: todas elas já perderam seu sentido original e, ou se tornaram brincadeira, ou estão permeadas de intenções veladas. 

Então, antes de jogar um balde de água na cabeça, observe em sua cidade, em seu bairro, há muita gente precisando de ajuda. E o que sua mão direita faz, a esquerda não precisa saber. 

E para lutar contra tudo isso, contra essa dominação e sujeição passiva, para que nossa existência e nossas relações tenham mais sentido, também vou lançar um desafio. Simples, muito simples: basta ficar um dia sem redes sociais e puxar conversa com alguém que você não conheça. Converse, fale sobre o tempo, sobre política, sobre futebol, fale sobre você (e pelo amor de Deus, não peça para ser adicionado no primeiro encontro).

3,2,1...valendo!

George dos Santos Pacheco

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