Terra de gigantes

 
Nessa Terra de Gigantes, somos tal qual peças de xadrez, todos nós. Cada um tem sua função. Imaginem um tabuleiro de xadrez em que todos fossem reis? Ou bispos? Não dá pra jogar xadrez assim. Ou dá? Não, não dá.

Mas se somos assim, cada um com sua função, com um talento a ser desenvolvido para o bem comum – ninguém trabalha simplesmente para si mesmo, o homem é um ser social, lembra-se? – porque se propaga a ideologia de um curso superior? Aliás, cabe aqui um questionamento: por que Curso Superior? Acaso quem tem um curso superior, é superior a algo ou alguma coisa? A nomenclatura dos diversos estágios de ensino já mudou um sem número de vezes, exceto o “curso superior”. Porque não “curso avançado”? Tudo bem, deixa pra lá…

Mas porque essa indignação toda, Pacheco?

Ora, por quê?

Porque me incomoda muito ver que tudo, tudo mesmo, virou comércio e que nós somos manipulados – sem nos darmos conta na maioria das vezes – a consumir feito frangos de granja. Somos manipulados a consumir celulares, consumir novelas, consumir fast-food, consumir brinquedos para nossos filhos, consumir redes sociais, consumir notícias… por onde se olha, o que se vê é consumo, é dinheiro, é comércio. Em todo lugar.

E cá estamos nós consumindo… inclusive Educação.

Isso mesmo, Educação, cara pálida.

Os outdoors das escolas de Ensino Médio estão espalhados por aí, vendendo a qualidade de ensino ofertada, com base nos resultados nos concursos vestibulares, ENEM, e coisa e tal. “Fulaninho G. Eastwood, 1º lugar em Medicina”; “Beltraninha de A. Dickinson, 2º lugar Engenharia Civil”; “Ciclaninho Bill, nota máxima na redação do ENEM”. Ora, como se o Brasil só precisasse de formados no Ensino Superior. Daí o garoto vê o outdoor sem um olhar crítico, e vai querer entrar para a entidade; o pai vai querer matricular os filhos, porque na escola tal o pessoal se dá bem, todo mundo vai pra faculdade, pelo menos é o que diz a placa com aquele monte de adolescentes fantasiados de médicos, fisioterapeuta, enfermeiro, jornalista e engenheiro.

A placa não diz que o número de evasões no curso superior é alto. Muitos acessam o curso superior, mas não conseguem concluir, seja na universidade pública, ou privada. A placa não diz, que um motorista de ônibus, por exemplo, não precisa ser um Engenheiro Mecânico, nem o carteiro precisa ser formado em Comunicação Social. E todos nós precisamos do motorista de ônibus e do carteiro.

O outdoor não diz que um grande número de profissionais formados pelas universidades estão desempregados, subempregados, mal remunerados. O outdoor não está nem aí pra você, ele quer mesmo é reproduzir o status quo da sociedade, quer que paguemos em dia os nossos cursos, mesmo que não venhamos a conclui-los. Consumo, dinheiro, e comércio. O que importa?

E os verdadeiros gigantes desta terra não são os meninos e meninas que saem das faculdades, aqueles que estampam os banners escolares, são os que perpetuam essa ideologia perversa, usando sonhos para oprimir.
 
George dos Santos Pacheco
 
 
* Publicado na Revista Êxito Rio, em  03/12/2015.
 

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