Episódio 2: O silêncio que procede ao esporro


Silêncio.

Adão viveu cento e trinta anos, gerou um filho e deu-lhe o nome de Set, que viveu cento e cinco anos, e depois gerou Enos, que viveu noventa anos, e depois gerou Cainan. Cainan viveu setenta anos, e depois gerou Malaleel. Malaleel viveu sessenta e cinco anos, e depois gerou Jared. Lúcia... Quem gerou Lúcia? Eu não faço ideia de quem gerou Lúcia. Lúcia gerou Márcio e o vendeu. Cléber e Martha compraram Márcio, não geraram porra nenhuma. Quem Márcio gerará? Boa coisa não vai ser, porque Márcio não presta...

Silêncio.

Eu não gostava muito da claridade, e a cortina ficava fechada em tempo integral, eu me sentia bem mais confortável assim. Uma semana após a mudança, ainda havia caixas para todos os lados. Silêncio. Eu não tinha muitos móveis, muito menos guarda-roupa, tudo ficava nas caixas. As únicas coisas que eu trouxera da casa daqueles dois foram minhas roupas, objetos pessoais, as coleções de livros e revistas e meu computador (além do bagulho), entretanto, agora eu já tinha conseguido comprar um fogão, uma geladeira, uma escrivaninha, uma cadeira de escritório – para trabalhar mais confortavelmente – e um colchonete. Este último, novo, os demais, porém, usados. Era o que dava para fazer com as parcas economias que eu tinha, com o tempo, eu conseguiria mobiliar a casa e viver decentemente. Havia também o Félix, esse gato filho da puta e interesseiro, como qualquer outra criatura... Aproximou-se de mim silenciosamente enquanto eu trabalhava na logomarca de uma clínica de fisioterapia. Parei por um instante para fazer-lhe carinho, era só o que bastava para ser feliz, além de um lugar quentinho para morar, e comida farta (eu já disse isso aqui).

Voltei ao meu trabalho. Todas as logomarcas de clínicas de fisioterapia eram uma ilustração ou silhueta de alguém com a mobilidade dificultada, em uma cadeira de rodas, ou muletas. Se eu fizesse qualquer coisa desse tipo eu não estaria fazendo nada de novo. O que eu criaria de novidade, para imagens já tão batidas para logomarcas. A fisioterapia visa restabelecer os movimentos dos pacientes, então, eu precisava passar a ideia de movimento, e não de imobilidade. Fiz os traços de uma pessoa, da altura do abdômen para cima, sem rosto, os braços abertos como em um exercício... Félix pulou em meu colo, estava inquieto, queria mais carinho. No antigo Egito eles ajudaram a combater os ratos que infestavam a região, causando doenças e danificando plantações. Se tornou um ser sagrado, era tratado como membro da família, fazendo jus até aos mesmos ritos fúnebre que os humanos sendo embalsamados e sepultados. E ai de quem matasse um bichano! Era condenado à morte! E por falar nisso, há quem diga que eles podem sentir a morte de alguém se aproximar. Será que eu morreria em breve?

– O que foi, Félix? – perguntei ao alisar seu pelo da cabeça, correndo minha mão pelo pescoço e dorso. – Tenho quanto tempo de vida? – continuei, ele apenas me olhava, enigmático. Assustei-me ao ouvir batidas na porta. – É... acho que ela chegou... – murmurei ao me levantar para atender. O gato saltou de meu colo e me acompanhou.

– Posso entrar? – perguntou Cléber quando abri a porta. Cléber era jornalista, e em viagem a serviço, não estava em casa quando saí de lá. Era magro e careca, os olhos fundos, com olheiras escuras sob estes. Os cabelos que circundavam a cabeça eram grisalhos, mais puxados para o loiro acinzentado. Sempre bem vestido, usava um terno negro, assim como sua gravata, tinha por volta de 1,70m de altura. Encarei-o por alguns segundos e saí de sua frente, indicando o interior da casa com o braço estendido, sem nada dizer. Fechei-a logo após ele entrar e segui-o.

Caminhou pela sala escura, cuidadosamente, entre as caixas até alcançar a janela e depois de breve hesitação puxou as cortinas, deixando a luz do céu entrar.

– Quem te deu o direito de vir em minha casa e... – esbravejei com o dedo em riste.

– Cale a boca! Cale a boca! – gritou me interrompendo, também com o dedo ereto em minha direção. Estava transtornado, as lágrimas inundavam os olhos vermelhos, as veias saltavam de seu pescoço. Olha só no que você se transformou... em um mendigo! O que é isso? Um monte de caixa espalhada, escuridão... e essa barba por fazer?

– Você não pode... – tentei intervir, perturbado.

– Eu posso o que eu quiser! – vociferou batendo no peito. – Ouviu bem? Eu posso o que eu quiser... – murmurou. Félix começou a se trançar em minhas pernas. – Você está se comportando feito um moleque, só um moleque se comporta dessa forma. Ande, junte suas tralhas e vamos voltar para casa, sua mãe está te esperando... – disse caminhando e desviando o olhar.

– Ela não é minha mãe! – esbravejei e tampei os ouvidos. O gato se assustou e correu para um dos cômodos.

– É sua mãe! Ela é tão sua mãe como eu sou seu pai... – afirmou se aproximando. Afastei-me.

– Não seja ridículo, Cléber, vocês me compraram, como qualquer coisa... é isso que eu sou? Uma coisa?

– Você não sabe o que está falando, Márcio...

– É claro que eu sei! Ela não te contou? Eu ouvi minha m... a Martha conversando com aquela... Lúcia. Vocês pagaram por mim! Eu fui comprado! – resmunguei, batendo as mãos espalmadas no peito.

– Márcio, você se comporta feito um menino. Logo você que sempre foi um cara maduro à beça para sua idade, sempre precoce... Toda essa revolta lembra a pirraça de um garotinho. Talvez devêssemos ter contado isso a você nessa época...

– É evidente que sim! Vocês deveriam ter me contado antes. Será que é tão difícil perceber isso? – disse ao caminhar para a janela e fechar as cortinas.

– Erramos! Erramos, meu filho! Todos erram, mas não dá para consertar um erro com outro, entende? Martha achou que se você soubesse ia amar menos a ela. Eu não acreditava nisso, mas ela é minha mulher e a apoiei. – explicou se aproximando. Encarou-me, minhas lágrimas não tardariam.

– Vadia... – sussurrei e ele me esbofeteou, sem dúvidas.

– Limpe essa sua boca para falar da Martha, seu moleque! Respeite sua mãe! – vociferou, ameaçando dar outro tapa e eu não desviei o rosto. Ele se conteve e baixou a voz. – Nós te demos tudo que você precisava... e não estou falando de brinquedos e roupas, de algo material. Te demos amor e carinho, proteção, tudo que uma criança precisa para se desenvolver de forma saudável. Nós te demos tudo...

– Esqueceram-se da verdade... – retruquei. Peguei um cigarro na escrivaninha e acendi. Ele se aproximou e tomou o cigarro de minha mão, amassando e atirando ao chão.

 – Não acenda um negócio desses na minha frente... – censurou-me, eu apenas o olhei de volta. Ele suspirou e voltou a si.

Cléber era um cara bacana, acho que eu sentia mais raiva de Martha. Acredito que toda minha revolta era pelo tamanho da admiração que eu nutria por eles. Não conseguia os ver agora diferentes de traidores, mentirosos, embusteiros...

Depois de um longo silêncio, continuou seu discurso.

– Lúcia foi trabalhar em nossa casa com dezessete anos. Foi indicação de uma tia de Martha, a empregada dela tinha uma irmã que passava por dificuldades, e o emprego para sua sobrinha ia melhorar e muito a qualidade de vida da família. Ela era apenas uma menina...

Completaram-se dois anos de serviços prestados a nós, aliás, muito mais que uma empregada, ela tornou-se uma amiga, a relação entre nós três sempre foi muito cordial. Nessa época, depois de inúmeras tentativas, descobrimos que não podíamos ter filhos. Certo dia, Lúcia chegou em casa transtornada, chorava e falava coisas desconexas. Estava grávida... – explicava-me cuidadosamente. Comecei a chorar, desesperadamente, aos soluços, mas sem dizer uma palavra; cabisbaixo, evitava encará-lo naquela condição. Ele se aproximou.

– Seu namorado, ao saber, disse que o filho era de outro, e não dele. Agrediu-a e sumiu. Ela pretendia abortar, mas nós a impedimos, prometemos que daríamos conforto e segurança a ela, pelo tempo que precisasse. O tempo foi passando, fomos nos afeiçoando à criança que nem havia nascido, quando ela nos surpreendeu, dizendo que iria embora, não teria como criar aquela criança. Voltaria para casa de sua mãe, no interior, talvez fosse melhor para ela e o bebê. Sabíamos que não, a situação de sua família era de extrema pobreza. Foi então que surgiu a proposta... adotaríamos a criança, e em troca, daríamos para ela uma considerável quantia em dinheiro que podia garantir uma situação confortável para sua família. Você nasceu, e ficou sob seus cuidados até um ano e meio, quando decidimos que era hora de ela partir. A separação foi difícil para todo mundo, mas superamos. Vê? Nós nunca te negociamos feito uma mercadoria. As coisas foram acontecendo assim... – concluiu e apoiou a mão em meu ombro, suspirando. Suas lágrimas voltaram e ganharam seu rosto. Cléber fungava. Depois deu um tapinha em meu ombro, nos abraçamos e ficamos assim sabe-se lá por quanto tempo, chorando juntos.

– Eu te amo, meu filho... – disse ele segurando minha a cabeça e me olhando firmemente.

– Eu também te amo... – respondi. Cléber abraçou-me fortemente, depois me soltou, limpou as lágrimas e seguiu para a saída.

– Volte logo para casa, sua mãe chora todos os dias... – rogou, ao girar nos calcanhares, a meio caminho.

– Minha casa agora é aqui... pai... – expliquei. Cléber assentiu com a cabeça, contrariado, virou as costas e saiu.


Escuridão. Silêncio.


Silêncio...


Desta vez, mais forte e pungente.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

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