Episódio 1: A verdade vos libertará


Gosto de café forte. A receita é muito simples: duas colheres de sopa bem cheias de pó, para uma xícara de água, e duas colheres de açúcar. Eu sempre faço a quantidade exata para ser consumida na hora, não gosto do sabor oxidado que o café ganha ao descansar na garrafa, nem do sabor queimado das cafeteiras.

Fervo a água – já misturada com açúcar – e passo o café diretamente na xícara. Escolho o melhor produto, tem um monte de marca barata por aí em que o café é moído com milho e gravetos. O sabor é horrível. E o café não é barato porque a empresa é boazinha, o produto foi muito mal produzido e o povo, em sua maioria com renda baixa, vai consumir, evidentemente, o mais barato. Essas firmas devem estar ganhando rios de dinheiro.

Percebem como há sempre um interesse por trás de tudo? Sempre há.

Acabei de pintar a sala, era o último cômodo a ser reparado. Ainda tenho muitas coisas fora do lugar, apesar de não ter tantos móveis assim. Há várias caixas com livros e revistas espalhadas, aprecio bastante a leitura, e gosto de colecionar os volumes. O apartamento é muito bom, é amplo, arejado, exatamente como a moça da imobiliária disse há uns cinco dias.

– O senhor vai gostar, o apartamento é amplo, arejado, realmente muito bom... O senhor tem mulher, filhos? – perguntou ao me oferecer as chaves.

– E o que você tem a ver com isso? – respondi de pronto ao pegá-las.

– Err... me perdoe... – desculpou-se encabulada.

Levantei-me e saí da loja, mas ao cruzar a soleira da porta, ouvi som de risinhos lá dentro e voltei.

– Qual é o motivo do riso?

– Desculpe... não estamos rindo do senhor... – respondeu uma funcionária no fundo da sala. – Foi um mal entendido, só isso. - concluiu. Seu olhar era irônico, suas desculpas não eram sinceras.

– Eu vou dizer o que é mal entendido. - exclamei com o dedo em riste. – Mal entendido... é vocês quererem saber da minha vida e debocharem de mim. Eu não tenho que dar satisfações sobre nada pra ninguém, muito menos pra vocês! Eu posso processá-las e, eu tenho certeza, que o seu patrão vai colocá-las na rua antes que o processo termine... – concluí e tornei a sair. Dessa vez não houve risinhos.

Hoje em dia as pessoas se interessam cada vez mais pela vida alheia. Tem gente que chega ao cúmulo de vasculhar o lixo dos vizinhos... Isso é realmente o cúmulo! Idiotas! Quem elas pensam que são para ficar rindo de mim daquele jeito? Nunca gostei de deboche. Talvez seja por causa disso que eu nunca tive muitos amigos, nem muitas namoradas. Para falar a verdade, eu acho que eu não tenho amigo algum. Nunca consegui trabalhar em firmas, e acabei me tornando design gráfico. Trabalho tranquilamente na solidão de meu quarto e c’est fini.

Aos treze eu tive uma crise nervosa na escola, cheguei a ser hospitalizado por algumas horas. Os caras mais populares da turma estavam me sacaneando – o que chamam hoje por bullying – e eu não sabia como reagir. Joguei minha mesa pro alto e fiz menção de ir na direção deles para agredi-los, mas desmaiei antes de alcançá-los. Continuei a ser a chacota da escola, o cara estranho que não parecia achar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou, o sujeito retraído sem poder de reação. Mas o clonazepam que passei a fazer uso depois desse episódio e as consultas com o psicólogo, me tornaram insensível a esse tipo de coisa, e a mais um monte de coisa por aí.

Eu tive diversas crises nervosas depois disso, a última foi há cerca de duas semanas. Tempos atrás eu avistei minha mãe conversando com uma ex-empregada em um dos supermercados da cidade. Elas não me viram. A expressão das duas não era das melhores, minha mãe estava apreensiva, parecia não querer ser vista com a... Luzia... acho que era Luzia o nome dela. Eu a vi em outras ocasiões perto do meu prédio, acredito que morava ali próximo. Sempre foi muito cordial comigo.

Mas naquela quinta-feira, eu voltava do psicólogo – devia ser por volta das 17 horas – e entrava pela porta de serviço, que dá direto para a lavanderia do apartamento. Eu ia por a mão na maçaneta, mas ouvi uma discussão e parei...

– Lúcia, eu não vou te dar mais dinheiro, chega!

– Você é quem sabe. Eu sei tudo sobre o garoto, será muito simples abrir seus olhos...

– Você não se atreva... - ameaçou minha mãe, com um tom de voz cada vez mais inflamado.

– E porque não? É um direito dele! - argumentou a ex-empregada. Falava ironicamente, muito diferente do que eu a conhecia.

– Direito dele, ou não, isso é um assunto que cabe somente à nossa família! – retrucou, abaixando a voz repentinamente, chegando quase a sussurrar.

– Família... você é patética. Uma família montada em cima de uma mentira!

– Cale a boca! Era para você ter sumido, foi para isso que te pagamos!

– Ora, eu me arrependi...

– Depois de 23 anos? A única coisa que você quer é dinheiro, sempre foi por dinheiro...

– E quem não quer dinheiro?

– Nos deixe em paz... – disse minha mãe, sua voz se distanciou um pouco, depois tornou a se aproximar. – Tome isso. Acha que é suficiente desta vez para sumir para sempre de nossas vidas?

– Talvez seja, é muito dinheiro... mas sempre será pouco para pagar a ausência de um filho...

– O Márcio é meu filho!

– Ele não é seu filho e você sabe muito bem disso!

Abri a porta rapidamente, eu não podia ouvir mais... As duas assustaram-se, não souberam como reagir assim como eu aos meus 13 anos.

– Meu filho, eu posso explicar!

– Que história é essa? - perguntei transtornado.

– Adeus, Martha... boa sorte, garoto... – murmurou Lúcia ao cruzar comigo na entrada.

– O que essa mulher está dizendo...

– Fica calmo... – disse a senhora já com lágrimas nos olhos.

– Como vou ficar calmo? Como eu posso ficar calmo? Me explica essa história agora, porque eu não posso esperar mais... eu... eu...

– Meu filho, eu quero dizer que eu e seu pai te amamos muito...

– Chega dessa conversa fiada e esses sentimentalismos, não é hora disso! – gritei, gesticulando e ela chorou ainda mais. – Olha, eu não sou burro e ouvi muito bem o que ela disse... seja sincera uma só vez na vida! - esbravejei. – Isso é verdade, eu não sou teu filho?

– Márcio...

– Fala!

– Meu filho... eu...

– Fala logo!

– Não! Não! Não é... - respondeu ela aos gritos, enterrando o rosto nas mãos e desabando em lágrimas, desesperadamente. Eu teria pena dela se não tivesse tanta raiva.

Ficamos em silêncio por um breve momento, chorando. Eu não sabia o que dizer, não sabia o que pensar. Por segundos toda a minha vida passou diante de meus olhos, todos os momentos que vivi com meus pais, diversas situações... aniversários... festas... tudo uma grande...

– Mentira! Tudo uma grande mentira é o que é a minha vida! – esbravejei a plenos pulmões.

– Meu filho... apenas este detalhe, este fato... o resto, tudo é verdadeiro... nossos sentimentos, nosso amor...

– Cale a boca, sua vadia! - gritei dando um soco na mesa. – Vamos por tudo em ordem agora, somos dois adultos conversando... – disse tentando me recompor. Aquela mulher que eu jurava conhecer parecia que ia morrer de tanto sofrimento, mas eu já não me importava mais. – Para começo de conversa, não me chame de filho, afinal, eu nunca fui...

– Para! Para com isso, por favor, eu estou sofrendo demais!

– Está vendo é esse o problema! Nunca foi por mim, nem pelo Cléber, nem por aquela cadela que me vendeu... foi apenas por você. Tudo para realizar esse desejo de ser mãe... Dane-se o enjeitado e todo o mundo!

– Não foi assim... – balbuciou.

– Mas é claro que foi! Mas olhe, vocês estão de parabéns... – disse batendo palmas ironicamente – me enganaram direitinho... Eu sempre estranhei o fato de não haver uma foto sequer de sua gravidez, de não me parecer fisicamente com nenhum dos dois, de não ter o mesmo sangue... mas nunca... nunca pensei nisso...

– Não era para ser assim, meu filho! – tentou argumentar vindo em minha direção.

– Não me chame de filho! – gritei segurando fortemente em seus pulsos e impulsionando-a de volta. – Quantos sabiam? Mas que pergunta idiota, todos sabiam...

– Não, Márcio... apenas alguns da família...

­– Para com isso, cara! Você é burra? Um segredo bem guardado está apenas com você. Todos sabiam, menos o idiota aqui. Agora entendo os olhares, o jeito estranho que as pessoas falavam comigo... Merda! Merda! Deviam dizer: “Olhem só, lá vai o enjeitadinho...”

– Meu filho, fique calmo, nós te amamos... isso é só... é só uma fase... – tentava me persuadir aquela velha senhora de olhos vermelhos de tanto chorar.

– Para Martha, que você só se complica... – retruquei, limpando meu nariz com as costas da mão. Virei-me e segui para a saída.

– Não me chame assim... – pediu aos prantos enquanto eu abria a porta.

– Esse não é o seu nome? É assim que eu vou te chamar agora... – respondi enquanto caminhava pelo corredor. A velha caminhava atrás.

– Espere aí! Aonde você vai? – perguntou ao apressar o passo para me acompanhar.

– Sei lá... pra qualquer lugar longe da minha vida. Vou esfriar a cabeça...

– Espera meu filho, você está muito nervoso, não faça uma besteira...

– Eu não sou imbecil o suficiente...

– Espere! Vamos conversar!

– Eu não tenho mais nada para conversar com você... – respondi enquanto a porta do elevador se fechava.

Fiquei dois dias fora de casa. O suficiente para encontrar este apartamento amplo, arejado e realmente muito bom neste edifício cinza como a minha vida. E o aluguel nem é tão caro, dá para pagar perfeitamente bem com o meu trabalho.

Lembram o que eu falei sobre os cafés? Há sempre um interesse por trás de tudo, sejam com os cafés, com a TV, ou com as pessoas. Há sempre uma outra intenção, um outro motivo. Desconfie sempre. O mundo está se tornando uma caixinha insuportável cheia de gente cada vez mais individualista e egocêntrica. Nem mesmo o filho da mãe do Félix – um gato preto de olhos tão amarelos quanto misteriosos – está aqui porque me ama, mas sim por conveniência, porque há comida, um lugar quentinho para dormir e um humano para lhe fazer carinho de vez em quando. Mas pelo menos ele não reclama dos meus cigarros.

Aliás, gosto de cigarros...

George dos Santos Pacheco

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